Zé Barretta, um fotógrafo documentarista com olhar super artístico

Buenos Aires, Argentina, durante residência artística em parceria com a Galeria Ambos Mundos

Zé Barretta é um fotógrafo documentarista vivendo em São Paulo. Sua experiência com foto jornalismo e retratos já tem mais de 10 anos, trabalhando como fotógrafo free-lancer para o jornal Folha de São Paulo, clientes corporativos, como o Facebook América Latina, Serviço de Comércio Social Sesc, etc.

Seus trabalhos documentais foram publicados inúmeras vezes, dentro e fora do Brasil, dentre eles no Projeto Habitat (Itália), Folha de São Paulo, Revista Vida Simples, Revista OLD, Mira Fotográfica Chile e também participaram da Mostra SP de Fotografia 2014, Festival Foto Argentina, Prêmio Foto Porto Seguro 2010, selecionados na Visura Photo Grant 2016 e AI-AP Latin America Fotografia 5.

Recém chegado de uma residência artística na Argentina, Zé Barretta conversou com a DOMI para contar um pouco mais sobre ele e sobre seu trabalho. 

 

Quem? 

Fotógrafo há 10 anos. Gosto de pensar a fotografia como uma forma de contato com mundos diferentes do meu, que é basicamente a de um paulistano de classe média. É incrível como vivemos em uma bolha, onde as pessoas pensam parecido, tem gostos parecidos, planejam as férias de forma parecida, se divertem de forma parecida. Só com a fotografia fui capaz de furar essa bolha e ter contato com universos diferentes, de uma favela a uma festa da alta sociedade. De uma ocupação na periferia à um restaurante caríssimo nos Jardins, de uma produção de cacau na Amazônia a uma cidade fantasma nos pampas argentinos. Sou bastante curioso e, claro, adoro viajar, a fotografia entrou na minha vida por aí. Não cresci pensando que me tornaria fotógrafo, nem imaginava que isso fosse acontecer.
 

O que? 

Bom, sou fotografo rs. Na verdade a fotografia é apenas uma parte do processo que envolve pesquisa, contatos, logística e depois edição, tratamento, mostrar o trabalho, tentar publicar ou expor, é bastante coisa, toma tempo. O processo criativo no entanto é bem caótico, não sei se posso dizer que tenho um. O trabalho pode surgir de uma leitura, de uma pesquisa, de outro trabalho ou até por acaso, mas percebo que a medida que vou desenvolvendo alguns temas, vão-se abrindo outras possibilidades, um trabalho leva a outro e quando isso acontece tomamos consciência de certos aspectos que não tínhamos pensado antes, isso é bacana porque vamos aprofundando a pesquisa, é um processo vivo. Isso em meio aos trabalhos comissionados, à graduação em geografia que estou terminando e a família com o pequeno Vittorio de dois anos.
 

Por que?

Como falei, a fotografia foi entrando na minha vida aos poucos, não pensava que seria fotógrafo, esse processo levou anos. Trabalhando já há 10 anos com fotografia, mais recentemente percebi que não bastava o trabalho comissionado, o "job". Claro que é uma maneira interessante de também estar em lugares e com pessoas que nunca estaria de outra forma, e, obvio, uma fonte de renda, mas também pode ser bastante superficial. Senti falta de me aprofundar mais em temas, em explorar outras possibilidades da linguagem fotográfica, em entender melhor o tempo da fotografia, não ter a pressão do cliente ou do jornal (eu atendo a Folha de São Paulo) para trazer a melhor foto sempre. Nesse sentido que voltei à universidade e também comecei mais sistematicamente a produzir trabalhos pessoais. Então essa produção pessoal independente, que alguns chamam de autoral, é uma produção mais recente, de uns 4 anos pra cá. Tem sido uma experiência muito positiva eu acho, tenho evoluído bastante mas sei que ainda estou em busca da minha linguagem própria.
 

Como? 

Como começou o processo de criação, acho que respondi na questão anterior, mas a escolha do tema é também um processo não muito claro, meio ao acaso, de forma intuitiva. Aí é fundamental um tema que me interesse de verdade, não exatamente um tema da moda ou para dizer em termos jornalísticos, não necessariamente uma pauta quente. Tem que ser algo que me tire de uma certa zona de conforto da minha rotina de trabalho, estudo, família. Primeiramente percebi que não era preciso grandes gastos ou viagens para produzir, aqui em São Paulo tem assuntos, locais, pessoas e histórias suficientes pra uma vida inteira. É estranho mas no fundo é difícil fotografar na própria cidade, pois é difícil parar a rotina para se dedicar a um trabalho que não tem demanda alguma (exceto a minha própria), e fotografar toma tempo. Descobri depois que planejar uma viagem para fotografar pode ser bastante produtivo, já que essas demandas do dia a dia ficam temporariamente suspensas e é possível dedicar o dia todo à fotografia, uma semana inteira à fotografia, mas é preciso planejamento para que isso aconteça, não basta simplesmente viajar para um lugar legal e sair fotografando.

 

Qual seu grande objetivo? 

O grande desafio é continuar, é seguir em frente apesar dos inúmeros motivos pra desanimar... arte, jornalismo e cultura no Brasil são áreas muito pouco valorizadas e as primeiras que sofrem em épocas de crise como a que estamos atravessando. Mas esse ano apesar de difícil em termos de trabalho pago, foi muito bom em relação a publicações/exposições dos trabalhos pessoais e isso ajuda muito a continuar produzindo. Participei de três residências artísticas fora do Brasil (uma em Salamanca, na Espanha, uma em Nicosia, capital do Chipre e outra em Buenos Aires), em mostras coletivas nos festivais de fotografia de Arles, PhotoEspaña e Paris Photo, três dos principais festivais da Europa, além de festivais e publicações no Brasil. Foi um ano cheio de surpresas positivas nesse sentido e já tenho alguns projetos que pretendo desenvolver ano que vem.