Fernando Feierabend, em entrevista completa feita por Alberto Beuttenmüller

 

Alguns anos atrás, o ilustre Alberto Beuttenmüller, poeta, escritor, jornalista, professor e curador de arte, teve uma longa conversa com Fernando Feierabend, nome conhecido das artes plásticas no Brasil. Nessa entrevista, Fernando falou sobre quase tudo: seu começo no mundo das Artes, seus primeiros clientes, seus desafios, seu processo criativo e muito mais. A DOMI teve acesso a essa deliciosa entrevista e publica aqui na integra para você..

 

Qual foi seu primeiro contato com as artes plásticas? Quando as artes entraram no seu mundo?

Vou te contar uma história que resume o meu primeiro contato com as artes plásticas, minha história e um sonho de criança.  Minha mãe freqüentava escritórios de arte e galerias, além de colecionar obras de alguns artistas. Sempre fui muito ligado à pintura e a acompanhava nessas visitas.

Quando eu tinha 11 ou 12 anos, talvez 1979 ou 1980, muito jovem ainda, estive com ela em uma galeria, antiga Marques Galeria, paramos em frente à vitrine e lá estava exposto um Fukushima, marrom, de uma beleza incrível, que me causou um impacto que eu não compreendi naquele momento.

Estudei arquitetura na Faculdade de Belas Artes de São Paulo com professores como Renina Katz e Paulo von Poser. Em 1991, aos 25 anos, me formei arquiteto. Em 1992, fui para a Alemanha cursar "kommunikations design" (design de comunicação). De lá, acabei viajando para a Itália e voltei ao Brasil depois de cerca de nove meses na Europa.

Aqui, me matriculei no Liceu de Artes e Ofícios e fiz durante dois anos o curso de pintura. Logo comecei a pintar diariamente, visitando posteriormente galerias e apresentando meu trabalho.

Em 1997, recebi a ligação do marchand da Marques Galeria, que conseguiu meu contato quando eu pintava o painel do aeroporto de Congonhas. Comecei a trabalhar com ele e nos tornamos amigos. Como arquiteto, fiz também alguns trabalhos para ele e seus familiares.

No ano de 2001 fiz o projeto e a obra da reforma da galeria, depois chamada New York Gallery. Quando fomos tirar o tapume para inaugurar o espaço, parei em frente à vitrine do lado de fora e lá estava meu quadro na mesma vitrine que eu havia visto o Fukushima aos 12 anos. Eu estava de pé, mas ali em frente, desta vez, era a minha obra.

 

Existiu ou existe uma pessoa em especial que lhe inspirou neste caminho ou lhe incentivou?

São muitas e por diversas e diferentes razões.

Cláudio J. P. Saltini foi quem me deu o ponta-pé definitivo e mais importante.

Radha Abramo, por olhar meu trabalho com carinho e seriedade.

Márcia Cristina Anteghini, arquiteta de talento, amiga em todos os momentos.

Cláudia Mussi, responsável por este projeto.

Alberto Beuttenmüller, Lúcia Py, Cris e Pedro Barbastefano, Mário e Malvina Gelleni, da galeria Portal, Sylvio Alves de Barros, Eduardo Karchvartanian, Marlene e Felipe Figliolini, Aparecida Marques Barbosa, Cléo e Marques, Manoel Bezerra da Silva, Hilmar Diniz Paiva. Casa Elias, Mauro e Carlinhos, Tran Tho, Cookie, minha esposa.

Todos que possuem obras minhas, que perpetuam o meu trabalho, Marina Levy, Marcelo Mello, Ana Cristina Canettieri,  Celma e Celso Ferro, Juliana Ribeiro Lima, Fábio Lima, Eliane Fratte, Ricardo e Mariana de Carvalho Alves, , Heloisa Fragetti, Vera Arantes Campos, Ricardo e Cibele Bachert e Wagner Bisco.

 

Em que momento se viu ou foi reconhecido como artista plástico?

Em 1992, eu tive a convicção de que estava fazendo um bom trabalho, naquela época eu já compreendia todo o processo criativo do início ao fim.

Mas o reconhecimento veio dois anos depois, quando levei meu trabalho num sábado de manhã para um pintor amigo meu, que já era famoso e tinha um atelier que servia como galeria.

No momento em que cheguei, ele estava atendendo um cliente e mostrando seu acervo. Me pediu que deixasse o trabalho ali e aguardasse ele terminar a conversa.

Em dado momento ele me chamou e disse que o cliente havia gostado muito de tudo que tinha visto, mas que gostaria de comprar o meu quadro. Meu amigo foi muito generoso, eu não sabia nem a que preço poderia vendê-lo. O cliente era de Maringá, disso me lembro. Abriu a carteira, me pagou e levou o quadro na mesma hora.

 

Você decidiu seguir essa carreira por vontade própria ou porque sempre lhe falavam que você tinha vocação para artista plástico?

Creio que fui levado pela minha necessidade de pintar, vocação é uma coisa muito subjetiva e minha necessidade de pintar era demais objetiva. Nunca soube o que seria, sabia o que queria fazer.

 

Quem foram seus primeiros clientes?

Vendi meus primeiros trabalhos para amigos e familiares. Pintava por necessidade e precisava comprar material, tintas, telas. Para calcular o preço, eu pegava o valor que gastava em tintas e telas e vendia a obra pelo dobro, para que eu pudesse comprar material para pintar outros dois trabalhos.

 

Você não faz projetos ou estudos para suas pinturas?

Não faço para meus quadros, apenas para projetos especiais que envolvam outros profissionais ou onde utilizo materiais que não são do meu dia-dia.

Quando pinto a relação é direta com minha obra, todos os meus quadros podem ser considerados projetos, de certa maneira. Tem uma consideração interessante que o arquiteto Steven Holl faz sobre a arquitetura, a música e a pintura:  “O percurso da arquitetura deve conduzir do abstrato ao concreto, do não formado ao formado. Enquanto um pintor ou um compositor podem se deslocar do concreto ao abstrato, um arquiteto deve trabalhar na direção inversa, incorporando gradualmente as atividades humanas no que começa como um diagrama abstrato”.

 

Quanto tempo você demora para fazer um trabalho?

Não tem um tempo definido, já pintei quadros muito rapidamente, e eram trabalhos muito bons. Hoje desconfio de quadros que saem muito rápido. Deixo eles descansarem um pouco. Não gosto de ficar muito tempo também em um quadro que não me responde.

Muitas vezes trabalho em um quadro e não consigo o que quero, deixo ele de lado. Em dado momento volto e em poucas horas ou mesmo duas pinceladas, tenho ele pronto.

Outro dia ouvi uma máxima que achei interessante: quando você olha para o seu trabalho e ele já não se parece seu, é porque está ganhando asas e ficando ou já está pronto.

 

Mas você não tem aquela mania de ficar meses mexendo num mesmo trabalho?

Não gosto de conversas que se alongam com o quadro, quero que ele flua e me indique caminhos. É preciso compreender o tempo da obra e não insistir ou forçar as coisas. Isso vale pra vida também [risos]. Gosto de sentir o trabalho fluir, vou buscando e encontrando, buscando e encontrando, cada quadro tem um caminho próprio, deve ocorrer como se fosse sem esforço.

 

Você tem um horário preferido para trabalhar o é movido pela inspiração?

Já gostei de trabalhar à noite ou de madrugada. Hoje prefiro o dia. Acredito na inspiração, mas ela pode ser guardada e bem guardada e trago ela quando vou pintar. A inspiração pode ser estocada, não é como a energia elétrica [risos]. Aliás, como eu disse anteriormente que já pintei quadros muito rapidamente, hoje gosto de conversar com a minha inspiração. Meu tempo hoje é diferente. O fazer me interessa. É através do fazer que se dá vida às ideias.

“O mundo é dos que o conquistam, não dos que sonham em conquistá-lo, ainda que com razão”, já dizia Fernando Pessoa. Existem milhares de pintores que nunca pintaram, cantores que nunca cantaram, estes não me interessam.

 

Qual o item mais indispensável no seu estúdio?

Gosto de ter todo o material que preciso em mãos. Gosto de boa luz, boa música e me sentir confortável no espaço onde estou trabalhando. No atelier a circulação e o acesso a tudo me é indispensável. De qualquer maneira, se não tenho tudo disponível, preciso saber o que tenho em mãos para trabalhar, não gosto de interromper meu trabalho por falta de uma cor ou de materiais. Se não tenho um vermelho específico ou um verde, nem cogito a presença dele no trabalho para não me atrapalhar.

Tenho uma relação de afeto e cumplicidade com os materiais. Quero que eles sintam que estão sendo transformados em algo novo.

 

De que forma a pintura exerce influência no seu cotidiano?

De diversas maneiras, o diálogo franco com os materiais, a expectativa, o tempo que é necessário para secagem e finalmente quando tenho a obra pronta. Mas um trabalho não se encerra aí, ele tem que circular e encontrar seu dono. Penso que nada está definitivamente pronto e nada também está definitivamente inacabado.

Somente o que negamos está pronto e no meu trabalho não procuro a negação, me relaciono com a aceitação e procuro soluções. Recuso as dúvidas quando estou trabalhando. A dúvida é da família da negação.

Quando o trabalho está pronto, a relação se inverte e cito de novo Steven Holl: “Não é o que o artista aceita, mas sim o que ele recusa o que define o significado de sua obra”.  Isso vale para a minha vida cotidiana.

 

Qual foi a encomenda que mais mexeu com seu ego, como lida com trabalhos por encomenda?

Gosto de encomendas, mas gosto de clientes que saibam respeitá-las. Quero que eles comprem o meu trabalho, não o meu quadro propriamente dito.

Dois momentos foram importantes: o painel do lobby do Galleria Plaza em Campinas, em 2002, e o quadro que fiz para a recepção da Audax Soluções Financeiras, também em Campinas, em 2012. Não creio que mexeram com meu ego propriamente dito, mas considerei e aceitei a oportunidade.

 

Participa de algum coletivo de artistas, mesmo que não envolva a produção de obras, mas pela discussão das expressões ou pelo puro contato com seus pares?

Não participo, tenho diversos amigos artistas com que vou a exposições e converso, mas pouco sobre arte. Conversamos sobre tudo, mas pouco sobre o trabalho de cada um. O trabalho deve dar o assunto, e não ser o assunto em si. Quem deve conversar sobre meu trabalho é alguém que o conheça, daí a importância do crítico de arte para o artista.

 

Você gosta que comentem ou falem do seu trabalho?

Gosto sim. Uma análise crítica, de pessoas especializadas, ou quando falam com o coração é bem-vinda. Gosto da frase que diz: “Sempre tenho disposição e vontade de aprender, mas nem sempre que me ensinem” [risos].

 

Como aconteceram e acontecem as mudanças no seu trabalho?

Muitas vezes por razões banais, um detalhe completamente fora de explicação. Minha mulher uma vez viu um quadro meu, antigo, na casa de um cliente e disse que gostaria que eu pintasse um novo que fosse daquela fase, parecido. A partir dali, fiz um trabalho e mudei de fase novamente, que durou sete anos, é a fase que chamei de Horizontes.

Existe um momento também, quando viajei pra Europa, que meu trabalho mudou bastante, como dá para ver no projeto Encontros.

 

Onde você encontra ideias para o seu trabalho?

Elas podem acontecer em uma experiência simples ou banal. Posso encontrá-las uma, duas ou três vezes em um dia. Quando não acontece, crio condições para que elas apareçam.

Tem uma frase de Abraham Lincoln que diz “Não se pode criar experiências, é preciso passar por elas”.

No caso da inspiração e das ideias creio ser possível criá-las.

 

Você tem uma rotina de ir a museus e galerias?

Adoro ir a museus, galerias de arte e institutos de arte, como o Tomie Ohtake e o Moreira Salles, em São Paulo. Gosto dos lugares onde temos o tempo necessário para ver as obras. Museus com obras contemporâneas e especialmente os grandes pintores são os que mais frequento. Gosto de levar meus filhos e ver crianças frequentando museus. Um país que quer ser desenvolvido deve ter museus, não só galerias.

 

Qual foi a última mostra que o surpreendeu?

A exposição dos Gêmeos e do Pancetti, ambas na Faap. As obras e a montagem estavam maravilhosas. Beatriz Milhazes e Daniel Senise na Pinacoteca também.

 

Qual obra de arte você gostaria que fosse sua?

Esta pergunta eu poderia entender como o trabalho que fosse meu no sentido que eu tivesse feito, ou gostaria de ter feito. Assim, te diria que são os trabalhos de difícil realização.

São alguns artistas de quem admiro o trabalho e teria na minha coleção, como Yolanda Mohalyi, Mabe, Fukushima, Gonçalo Ivo, e os grandes mestres como Paul Gauguin, Pissaro, George Innes e Eugéne Bodin.

 

O que a arte representa para você?

Creio que a arte é o que há de mais importante para o ser humano, é o que há de mais objetivo no mundo, o resto é tudo relativo e subjetivo.

 

Qual a importância do artista plástico?

Creio na importância do ofício, do trabalho. Mas acho que o artista plástico não tem importância nenhuma, assim como ninguém tem importância. Somos nós que damos valor ou importância às coisas.

 

Você vive da sua arte?

Não vivo da minha arte. Eu faço uma vida da minha arte.

 

Sente-se realizado com sua profissão? Por quê?

Eu me sinto realizado. Pinto o que quero e compram meu trabalho, pagam por ele.

No dia em que as pessoas descobrirem que um quadro tem valor quando comprado do artista, do marchand ou da galeria, este é seu valor.

As grandes coleções foram feitas compradas dos artistas ou de seus representantes.

Quem deve ficar rico com a valorização de uma obra de arte é quem paga pelo trabalho do artista, não quem paga ao mercado.

 

Se você não fosse artista plástico, qual profissão você escolheria?

Diplomata ou trabalharia no mercado financeiro.

 

Quais sãos os seus sonhos?

Nunca tive sonhos, no sentido talvez a que você se refere.

Sou o que sou e continuo sonhando, ainda sim [risos].

 

Qual é sua birra com o mundo da arte?

Não tenho muito o que falar, nem sei se de fato existe mercado. O que existe é compra e venda de obras. Houve um momento nos anos 1970 que havia mercado. As coisas não são isoladas, coisas importantes aconteciam naquele momento na literatura, no cinema, na própria televisão. Hoje o que existe são conversas esquizofrênicas que constroem e destroem simplesmente.

Funciona, como dizia Camus, prevendo um futuro próximo: “O mundo vai ser movido pela violência e pregação”. É o que temos. O mercado me parece burro.

Aproveito para contar uma história que li e repito aqui. Um cliente entrou em um atelier de um artista importante e queria comprar um trabalho, perguntou o preço e o artista disse: R$ 10 mil.

O cliente pagou e falou ao artista: eu teria pagado R$ 20 mil se você dissesse que este era o preço. O artista respondeu: e eu teria te vendido por R$ 5.000.

Ali naquele momento o dinheiro era secundário e deve ser quando falamos de arte.

O que importa é a relação de confiança entre as pessoas, artista, galeria, colecionadores. Não sei onde encontro esta relação no mercado.

 

Qual foi sua obra mais importante na vida?

A minha própria vida.