Elias Barreto: "De maneira holística, acredito que ela seja a capacidade de despertar no outro a curiosidade de uma resposta que cada um já possui dentro de si."

Artista com uma de suas obras.

Esse mês conseguimos conversar com o artista Elias Barreto que nos contou mais sobre  sua grande paixão pela arte, que iniciou bem cedo, pois sempre em busca de maneiras de expressar a peculiaridade da vida por meio do olhar artístico.

Parafraseando o grande Jackson Pollock, Elias Barreto não esculpe a natureza, ele personifica a própria natureza. Seu trabalho reflete não só toda a magnitude da natureza, como também a pungente necessidade de preservação desta, que tem sido desgastada exponencialmente pelas atividades antrópicas. Em cada uma de suas obras Elias tenta demonstrar à  mãe natureza que é sim possível reutilizar, de maneira útil e agradável, sua matéria-prima de modo sustentável, pois de acordo com ele, imunizada, a madeira recupera o papel de verdadeira protagonista de um grande espetáculo.

Confira abaixo como foi nossa conversa deliciosa que tivemos, a lucidez desse artista maravilhoso em cada uma de suas respostas, em especial a acuidade em sua definição de arte!! Ficamos todos simplesmente apaixonados aqui!

 

Como você se definiria, como pessoa e como artista, para aqueles que ainda não te conhecem?

Como pessoa, sem dúvidas, sou alguém muito inquieto em relação às incertezas da vida. Costumo trabalhar com mais de uma escultura por vez, pois enquanto as faço, novas ideias vão surgindo na mente. Muitas vezes, o que não cabe em uma obra, encaixa-se perfeitamente em outra, e, assim, sigo nesse fluxo quase incansável de produção. Sou um pouco mecânico, um pouco humorista, um pouco eletricista, gosto de consertar coisas. Adoro viajar, conhecer novos lugares, novas pessoas e adquirir experiências que possam expandir o meu eu interior. Como artista, estou sempre procurando a peça ideal, que possa concordar com as ideias que tenho em mente e que possa traduzir o meu objetivo final, que é a ressurreição da matéria-prima morta da natureza.

 

Sabemos que é muito difícil estabelecermos uma definição muito fechada para arte. Mas para você, o que significa Arte?

Realmente qualquer definição fixa para a arte é algo totalmente equivocado, porque a arte não é, ela está. Mudam-se os tempos, mudam-se os pensamentos, mudam-se as vontades e, concomitantemente, a arte segue o mesmo percurso de transmutação. De maneira holística, acredito que ela seja a capacidade de despertar no outro a curiosidade de uma resposta que cada um já possui dentro de si. Como sempre existirão novas perguntas, a produção da arte tende ao infinito, seja por intermédio das palavras, da música, do diálogo ou das esculturas. Ela não tem uma forma correta, a própria vida é um tipo de arte (muito bonita e singular, diga-se de passagem).

 

Como você entrou para a Arte ou como ela entrou em sua vida?

Desde meus treze anos, apaixonei-me por entalhe. Ainda pequeno, ao observar o meu vizinho entalhando, eu ficava admirado com o fato de poder transformar um objeto em outro de modo tão peculiar e ímpar. Então, através de um amigo que tenho em Nova Viçosa - BA, pude ter o verdadeiro contato com a madeira, já que ele ofereceu-me uma raiz de árvore resgatada e disse “leve e faça uma arte para você”. E essa foi a minha primeira escultura, de tantas outras que viriam.

 

Fale um pouco sobre suas influências ou seus mestres, pessoas que te inspiram ou inspiraram em sua jornada.

Sobre mestre e influência, tenho a figura de Frans Krajcberg (in memoriam). De modo inovador e incisivo, tudo o que ele tocava transformava-se em obra de arte. Ele realmente foi um gênio da arte de denúncia ambientalista, e fico muito feliz por ter tido o prazer de conhecê-lo. Com certeza o legado dele é imortal, principalmente em tempos em que o ecocídio, infelizmente, é tão comum no mundo em que vivemos.

 

Como a questão da pandemia e do isolamento social tem nfluenciado em seu processo criativo?

Há a dificuldade de encontrar os insumos (raízes e galhos naturais) corretos, já que o objetivo do meu trabalho é utilizar a linguagem artística como alternativa à morte da flora que nos cerca. Quanto à produção, acredito que tenha ficado mais intensa, afinal, já que estamos em isolamento social, acabo dedicando boa parte do tempo ao meu ateliê.

 

Certamente seu trabalho já passou por diversas fases e se modificou ao longo do tempo, mas em que consiste seu trabalho hoje?

Sim, é verdade. No entanto, apesar das mudanças de fases, o resultado final possui sempre o objetivo de refletir a necessidade da preservação da natureza, que tem sido desgastada exponencialmente pelas atividades antrópicas, e de descobrir (pelo tato) as inúmeras formas pela qual a flora transcende.

 

Como artista brasileiro que é, quais você diria que foram ou ainda são seus grandes desafios para trabalhar e viver de Arte aqui no Brasil?

Embora o Brasil esteja crescendo no mercado da arte global, a cultura de admirar a arte e entendê-la como fator decisivo para a construção do interior humano ainda é muito falha, principalmente na base escolar estudantil. De acordo com Jean-Paul Sartre – filósofo francês –, a essência do cidadão advém do meio em que ele está inserido, ou seja, os costumes de determinada sociedade desempenham papel fundamental em quem você deseja ser e em como tais intervenções externas podem afetar a sua vida particularmente. Devido a isso, o número de pessoas dedicadas ao fomento da arte em nosso país, infelizmente, ainda não é tão grande, comparado a outros locais, como o Reino Unido, os Estados Unidos da América e parte da Europa.

 

Ao longo de sua carreira, considerando a sua trajetória profissional até o os dias de hoje, quais você diria que são as características ou atributos fundamentais que um artista deve ter?

Primeiramente, é imprescindível ser verdadeiro à sua essência, uma vez que ela define como a sua obra está sendo produzida através das suas mãos. Utilize todo o tempo necessário para manejá-la da melhor forma possível. Se você permitir, a obra fala com você. Ouça e seja ouvido por ela. Além disso, defina o seu eixo e estude muito, tenha sempre boas referências guiando seus projetos.

 

Que sugestões, conselhos ou dicas você daria para um jovem artista ou alguém que ainda esteja começando no mundo da Arte?

Parece clichê, mas é verdade: coloque sempre amor em tudo. Substitua a palavra ‘desistir’ por ‘persistir’ e, assim, provavelmente, você alcançará seus objetivos. Todas as coisas possuem um tempo certo para acontecer, não busque imediatismos, dê sempre o seu melhor.

 

Um dia perfeito para você seria...

Como o de hoje: com a minha família saudável e unida. Apesar da pandemia nos dias atuais, há sempre aquela vontade de viajar e de visitar museus e galerias que ainda não tive a oportunidade de conhecer anteriormente, fazer novas amizades no mundo da arte e sentir o prazer de compartilhar novas experiências.

 

O ano de 2021 começou e já parece que está voando!!! Mas ainda temos bastante tempo pela frente, não é mesmo? Nos conte um pouco sobre seus planos, sonhos ou projetos para este ano ou mesmo para os próximos.

Pretendo mudar de ateliê, pois o que estou atualmente é pequeno para o trabalho que desenvolvo. Quanto aos sonhos, grande parte deles já está acontecendo, mas, já que são eles que nos movem, com certeza ainda tenho muitos outros a atingir. Pretendo realizar exposições ‘pelos quatro cantos do mundo’. Como acredito em um Ser superior, posso afirmar que Ele é sempre fiel em todos os planos que possui para a minha vida!

 

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