Entrevistas

Claudio Edinger, um dos mais importantes fotógrafos do Brasil...

 
Claudio Edinger, um dos mais importantes fotógrafos do Brasil, nasceu em 1952 no Rio de Janeiro, filho de pai alemão e mãe russa. Reconhecimento internacional e incontáveis prêmios, do calibre do Prêmio Hasselblad, Prêmio Abril de Fotografia, One of The Year's Best Books (revista American Photo por Old Havana) e Prêmio Ernst Haas, acompanham esse fotógrafo pela grandiosidade e sensibilidade impressionantes em seu trabalho.

Bastante acostumado a expor em diferentes galerias ao redor do mundo, dentre elas no Maine Photographic Workshop, EUA; International Center of Photography, EUA; Galeria Arte 57, São Paulo; Casa 11 Foto, Rio de Janeiro e Photographer's Gallery, Londres; atualmente vive em São Paulo e, mesmo com a correria decorrente do trabalho e da abertura de sua mais recente exposição, Machina Mundi NYC, na Galeria Lume, que acaba de acontecer, Claudio Edinger reservou um tempinho para um bate papo rápido e delicioso com a DOMI que você precisa conferir..


Quem é Claudio Edinger? Tenho absoluta certeza que todos esses adjetivos maravilhosos recebidos ao longo dos anos, através inúmeros artigos e reportagens sobre você, dentro e fora do país, lhe fazem jus perfeitamente. Mas como você se definiria?
 
Sempre acreditei que todos temos extraordinárias possibilidades, somos o universo encapsulado em um indivíduo. Todos somos isso. Descobri que tinha temperamento de artista bem cedo. Com dez anos de idade fiquei de castigo no colegio Rio Branco em SP. Tive que escrever cem vezes no quadro negro que dali em diante iria me comportar bem. Comecei a escrever e de repente mudei a letra, mudei o tamanho, praticamente fiz uma instalação, cada repetição de um jeito. Na hora não me dei conta mas anos depois percebi que ali surgiu minha necessidade de criar, de descobrir até onde vão nossos limites, descobrir todas as possibilidades de um ato, de uma criação. Pratico meditação há mais de 45 anos, está tudo relacionado com o que faço. Sou isso, só mais um que não se conforma em ser apenas mais um. 


O que exatamente você faz ou no que consiste o seu trabalho hoje?
 
Meu trabalho é de pesquisa. Gosto de comparar a fotografia à medicina. Temos fotógrafos cirurgiões, clinicos gerais, oftalmologistas, etc. Eu adoro pesquisar estudar, procuro a cura para doenças incuráveis — que em filosofia é a tentativa de descobrir quem somos e que raios estamos fazendo aqui, nesta bola giratória, imensa mas que é uma partícula comparada com os outros planetas, flutuando no espaço.


Por que escolheu a fotografia como forma de se expressar? Fale um pouco sobre suas influências e inspirações
 
Desde menino li muito. Adoro ler, passei a adolescência lendo os clássico, criando fotogramas do que lia. A arte fotográfica é pura terapia, extraímos segredos de nosso interior que, confrontados por nós mesmos, nos curam. A fotografia tem esse poder. O tempo destrói todas as coisas. A fotografia é o antídoto.

Como foi seu caminho para chegar até aqui? Olhando para trás, além das suas conquistas e satisfações, quais foram seus grandes desafios?
 
Com 23 anos de idade mudei-me para Nova York. Tinha acabado de expor meu trabalho no MASP. Por que não levar o trabalho para expor lá? pensei. Não falava direito a lingua, não conhecia ninguém só sabia que queria fotografar. E fotografar o que eu quisesse, onde meu instinto me levasse, sempre tive dificuldades em obedecer os outros, sempre fui muito rebelde, pelo menos quando era jovem. Este geralmente é o tempramento arisco de um artista. Fiz trabalhos comerciais e estes foram muito úteis, serviram como laboratorio para colocar meus experimentos em pratica. O artista navega num mar de imprevisibilidades e isso sempre me motivou. Quanto maiores as dificuldades mais motivado eu fico. Claro diversas vezes fiquei desanimado. Tive momentos de grande aperto em Nova York. Morei no Hotel Chelsea dois anos sem pagar aluguel — dava fotos em troca para o dono do hotel.  Isso até publicar meu primeiro livro e conseguir trabalho para as revistas americanas.

Qual o conselho que você daria para alguém que está em início de carreira? Se você conseguisse resumir todo o aprendizado ao longo de sua carreira, em uma, duas ou três sugestões que gostaria de ter recebido quando era mais jovem, quais seriam essa(s) sugestão(ões)?
 
Estude muito. História da arte, da fotografia, poesia, literatura, música clássica. Pesquise muito, sempre. Produza muito. Entenda que a fotografia é muito ciumenta, não gosta de rivais. Exige total dedicação. Digo sempre que o fotógrafo é um gorila. Não adianta colocar uma fantasia numa girafa que ela não vira gorila. Ou se nasce ou não é. O jovem fotógrafo precisa resolver esta questão no início. Sou ou não fotógrafo? Se a respota for sim então esqueça o resto, saia para fotografar até encontrar seu rumo na fotografia. Vai aparecer. Converse muito com outros fotógrafos, mostre seu trabalho, esteja sempre aberto às críticas. Saiba quais críticas servem quais não. Quando fiz o livro sobre o Chelsea Hotel muitos fotógrafos me desencorajaram — "isso nunca vai virar um livro" diziam. Segui em frente porque acreditava nele. É preciso também entender que a fotografia é uma força da natureza, tem poder próprio. Se vc se alia a ela, ela cuida de vc, te dá ideias, te dá trabalho, a mágica entra em ação. Goethe diz que quando seguimos o coração, o universo conspira a nosso favor. Eu sou prova absoluta disso. 

Onde mais deseja chegar? Tirando todo esse legado que ficará no mundo para sempre, com esse trabalho incrível, sensível, generoso,... para onde mais seu coração de artista anseia te levar? Fale um pouco sobre algum grande sonho ou objetivo que deseja alcançar
 
Procuro o limite, a curva da Terra, onde nascem as nuvens, onde as estrelas se acendem. Quem faz meditação está à caça disso. Sabendo claramente que não há limites, que o mistério não tem solução. Quanto mais se descobre mais denso fica. Adoro isso. Adoro aprofundar a pesquisa. É só o que eu sei fazer. Não tenho um objetivo numérico. Meu objetivo é espiritual. Quando mais nos aprofundamos em qualquer coisa, mais descobrimos a essência do Universo. Não consigo imaginar qualquer outra forma de viver. Não trabalho, tudo o que faço, faço por imenso prazer. Quanto mais vc faz, como numa maratona em que fica facil correr, mais prazeirozo fica fazer, mais articulado vc fica. Tolstoy diz que sem saber quem somos é impossivel viver. Vivo em busca disso.
 
 
 
 
Para conhecer mais o trabalho do fotógrafo:  www.claudioedinger.com
 
 


 
Ler mais

Ery Nunes e seus abstratos expressionistas

 

Quem?

Moro em João Pessoa, gosto de ler, estudar os grandes mestres, adoro fazer um prato diferente para os que me rodeiam e amo pintar.

O que?

Pinto o abstrato expressionista, fragmento a cor, elegendo a forma, óleo sobre tela, extremamente exigente comigo mesmo.

Por que?

A arte já vem intrinsicamente com o artista, ele é apenas o instrumento. Em algum momento da vida, ele decide por desenvolver esse dom, ou caminhar por outras estradas.

Como?

Observo a vida, vejo as imagens, sinto as emoções. Construo minha própria cena e a desconstruo em fragmentos pictóricos.

Quais suas maiores dificuldades?

Minhas dificuldades são a ausência de agenda pra estudar bem mais e pintar, pintar e pintar.

Onde deseja chegar?

Quero sempre chegar no sentimentos das pessoas, extrair delas : felicidade, alegria, paz e caminhos. Vocês não imaginam a ansiedade de mergulhar na imensidão de uma tela branca e extrair cores e formas, construir o que não existia e de algum sentido fazer por apenas um minuto alguém feliz.


 

Ler mais

Zé Barretta, um fotógrafo documentarista com olhar super artístico

Zé Barretta é um fotógrafo documentarista vivendo em São Paulo. Sua experiência com foto jornalismo e retratos já tem mais de 10 anos, trabalhando como fotógrafo free-lancer para o jornal Folha de São Paulo, clientes corporativos, como o Facebook América Latina, Serviço de Comércio Social Sesc, etc.

Seus trabalhos documentais foram publicados inúmeras vezes, dentro e fora do Brasil, dentre eles no Projeto Habitat (Itália), Folha de São Paulo, Revista Vida Simples, Revista OLD, Mira Fotográfica Chile e também participaram da Mostra SP de Fotografia 2014, Festival Foto Argentina, Prêmio Foto Porto Seguro 2010, selecionados na Visura Photo Grant 2016 e AI-AP Latin America Fotografia 5.

Recém chegado de uma residência artística na Argentina, Zé Barretta conversou com a DOMI para contar um pouco mais sobre ele e sobre seu trabalho. 

 

Quem? 

Fotógrafo há 10 anos. Gosto de pensar a fotografia como uma forma de contato com mundos diferentes do meu, que é basicamente a de um paulistano de classe média. É incrível como vivemos em uma bolha, onde as pessoas pensam parecido, tem gostos parecidos, planejam as férias de forma parecida, se divertem de forma parecida. Só com a fotografia fui capaz de furar essa bolha e ter contato com universos diferentes, de uma favela a uma festa da alta sociedade. De uma ocupação na periferia à um restaurante caríssimo nos Jardins, de uma produção de cacau na Amazônia a uma cidade fantasma nos pampas argentinos. Sou bastante curioso e, claro, adoro viajar, a fotografia entrou na minha vida por aí. Não cresci pensando que me tornaria fotógrafo, nem imaginava que isso fosse acontecer.
 

O que? 

Bom, sou fotografo rs. Na verdade a fotografia é apenas uma parte do processo que envolve pesquisa, contatos, logística e depois edição, tratamento, mostrar o trabalho, tentar publicar ou expor, é bastante coisa, toma tempo. O processo criativo no entanto é bem caótico, não sei se posso dizer que tenho um. O trabalho pode surgir de uma leitura, de uma pesquisa, de outro trabalho ou até por acaso, mas percebo que a medida que vou desenvolvendo alguns temas, vão-se abrindo outras possibilidades, um trabalho leva a outro e quando isso acontece tomamos consciência de certos aspectos que não tínhamos pensado antes, isso é bacana porque vamos aprofundando a pesquisa, é um processo vivo. Isso em meio aos trabalhos comissionados, à graduação em geografia que estou terminando e a família com o pequeno Vittorio de dois anos.
 

Por que?

Como falei, a fotografia foi entrando na minha vida aos poucos, não pensava que seria fotógrafo, esse processo levou anos. Trabalhando já há 10 anos com fotografia, mais recentemente percebi que não bastava o trabalho comissionado, o "job". Claro que é uma maneira interessante de também estar em lugares e com pessoas que nunca estaria de outra forma, e, obvio, uma fonte de renda, mas também pode ser bastante superficial. Senti falta de me aprofundar mais em temas, em explorar outras possibilidades da linguagem fotográfica, em entender melhor o tempo da fotografia, não ter a pressão do cliente ou do jornal (eu atendo a Folha de São Paulo) para trazer a melhor foto sempre. Nesse sentido que voltei à universidade e também comecei mais sistematicamente a produzir trabalhos pessoais. Então essa produção pessoal independente, que alguns chamam de autoral, é uma produção mais recente, de uns 4 anos pra cá. Tem sido uma experiência muito positiva eu acho, tenho evoluído bastante mas sei que ainda estou em busca da minha linguagem própria.
 

Como? 

Como começou o processo de criação, acho que respondi na questão anterior, mas a escolha do tema é também um processo não muito claro, meio ao acaso, de forma intuitiva. Aí é fundamental um tema que me interesse de verdade, não exatamente um tema da moda ou para dizer em termos jornalísticos, não necessariamente uma pauta quente. Tem que ser algo que me tire de uma certa zona de conforto da minha rotina de trabalho, estudo, família. Primeiramente percebi que não era preciso grandes gastos ou viagens para produzir, aqui em São Paulo tem assuntos, locais, pessoas e histórias suficientes pra uma vida inteira. É estranho mas no fundo é difícil fotografar na própria cidade, pois é difícil parar a rotina para se dedicar a um trabalho que não tem demanda alguma (exceto a minha própria), e fotografar toma tempo. Descobri depois que planejar uma viagem para fotografar pode ser bastante produtivo, já que essas demandas do dia a dia ficam temporariamente suspensas e é possível dedicar o dia todo à fotografia, uma semana inteira à fotografia, mas é preciso planejamento para que isso aconteça, não basta simplesmente viajar para um lugar legal e sair fotografando.

 

Qual seu grande objetivo? 

O grande desafio é continuar, é seguir em frente apesar dos inúmeros motivos pra desanimar... arte, jornalismo e cultura no Brasil são áreas muito pouco valorizadas e as primeiras que sofrem em épocas de crise como a que estamos atravessando. Mas esse ano apesar de difícil em termos de trabalho pago, foi muito bom em relação a publicações/exposições dos trabalhos pessoais e isso ajuda muito a continuar produzindo. Participei de três residências artísticas fora do Brasil (uma em Salamanca, na Espanha, uma em Nicosia, capital do Chipre e outra em Buenos Aires), em mostras coletivas nos festivais de fotografia de Arles, PhotoEspaña e Paris Photo, três dos principais festivais da Europa, além de festivais e publicações no Brasil. Foi um ano cheio de surpresas positivas nesse sentido e já tenho alguns projetos que pretendo desenvolver ano que vem.

 

 

 

Ler mais

Lucia Costa, um dos talentos da DOMI

Lucia Costa é uma artista carioca que gosta de explorar espaços urbanos já ocupados e esvaziar as imagens de seus significados. Em seu processo criativo se inspira nas paisagens arquitetônicas capturadas através de sua lente fotográfica, desenvolvendo uma narrativa abstrata, na qual imagens fragmentadas se reorganizam tanto em fotocolagens digitais como em pinturas.

Recém chegada de Luxemburgo, onde esteve para exposição e premiação do Luxembourg Art Prize 2018, Lucia conversou com a DOMI em um rápido bate papo, nos contando um pouco mais sobre sua trajetória artística. Confira!

 

Quem?

Sou uma carioca da gema de 57 anos, casada, sem filhos e 2 gatos. Economista por formação e artista por paixão. Meio nômade, perseverante e muito inquieta.

 

O que?

Faço pinturas contemporâneas em acrílica e hiperfotografias através de colagens digitais. Desenvolvo uma narrativa abstrata inspirada na arquitetura urbana.

 

Por que?

Faço o que faço por paixão. Tento transmitir através da minha arte a minha visão de mundo.

 

Como?

Eu comecei participando de exposições coletivas organizadas pelas orientadoras das oficinas de arte que frequentei, e em feiras de arte contemporânea no brasil e no exterior. Escolho recortes da arquitetura urbana e começo a observá-los e estudá-los em relação à forma e cor. Me interessa criar novas possibilidades de ver, transformar realidades existentes em novas realidades.

 

Qual seu objetivo?

Viver de Arte

 

Onde quer chegar?

Eu quero que a minha arte seja admirada por um número cada vez maior de pessoas em todo o mundo.

 

 

 

 

Ler mais

Vivi Villanova do canal no Youtube VIVIEUVI conversa com a DOMI

Toda essa popularidade e destaque não vieram da noite para o dia. Já faz um bom tempo que ela trabalha com cultura e está envolvida em projetos relacionados às Artes: música, teatro, exposições, etc. É formada em Comunicação Social e já passou por diversas agências de publicidade, revistas, TV, cinema publicitário.

Mas o que tem encantado os seguidores de seu canal no YouTube VIVIEUVI, com mais de 77 mil inscritos e com vídeos batendo records de visualizações, é o seu jeitinho todo especial e bem humorado de abordar, explicar e refletir, de forma tão gostosa e descontraída, esse assunto que amamos tanto: Arte.

A DOMI quis conhecer um pouco melhor essa mulher tão cativante que está fazendo sucesso no mundo dos apaixonados por Arte, que além de estudar muito, vem aumentando freneticamente seus números nas redes sociais, e fez essa deliciosa MINI ENTREVISTA. Confiram..

 

Quem é Vivi?

Pergunta filosófica, estou na jornada de descobrir esse “quem”. Mas na prática, sou uma mulher de 29 anos, meio cética, meio mística. Tenho um canal no youtube onde eu falo sobre arte chamado VIVIEUVI, aliás se inscreve que é divertido :)

O que você faz?

Há mais de dois anos eu posto vídeos no youtube sobre temas que rondam o universo da arte. Biografias de artistas, movimentos artísticos, exposições, pensamentos. No Facebook tenho um grupo que eu amo de paixão onde a galera compartilha notícias, vídeos, memes e muitos trabalhos pessoais. O Instagram é uma continuação disso tudo.

Por que?

Eu amo arte. Arte ressignifica minha vida. E eu fico muito feliz dedividir essa paixão com pessoas que vibram tanto quanto eu com esse tipo de expressão.

Como?

Eu parto da minha experiência com a arte que é de leiga-amante. Nessa jornada dos vídeos eu aprendi muito, mas o que me guia é o encanto. Acho que as pessoas se conectam comigo nesse lugar, no lugar da paixão. E quanto mais a gente vê arte, mais a gente quer arte.

Qual seu objetivo?

Acho que meu objetivo é reunir amigos que queiram dividir essa arte toda comigo e construir. Até agora o caminho tem sido muito rico.

Onde quer chegar?

Eu quero continuar fazendo os vídeos e trazer essa convivência da internet cada vez mais pra vida real também. Estou atenta aos sinais.. kkk

 

DOMI Galeria de Arte Online

 

Ler mais

Conheça o escultor de uma das peças em destaque na exposição “Histórias afro-atlânticas”, no Masp

 

Autor de uma das obras mais comentadas na mostra “Histórias afro-atlânticas”, que estreou no fim de junho no Museu de Arte de São Paulo e no Instituto Tomie Ohtake, Flávio Cerqueira (1983) flerta com a escultura desde os 16 anos, mas foi ao ver uma exposição do francês Auguste Rodin, na Pinacoteca de São Paulo, que o artista paulistano se apaixonou pelo bronze. Desse material é feita “Amnésia”, obra que traz à exposição o tema do embranquecimento da população negra: “O personagem simboliza a última pessoa a sofrer esse processo, a lata de tinta que o garoto despeja em seu próprio corpo não tem material suficiente para cobri-lo por inteiro”.

Com curadoria de Adriano Pedrosa, Lilia Schwarcz, Hélio Menezes, Ayrson Heráclito e Tomás Toledo, a mostra reúne representações das culturas afro-atlânticas, assim como trabalhos de importantes artistas negros de todo o mundo. São cerca de 450 obras de diferentes períodos, materiais e estilos em cartaz nas duas instituições de São Paulo, até 21 de outubro.

 

Confira a seguir uma entrevista com o escultor Flávio Cerqueira:

 

SP-Arte: Como você começou a trabalhar com escultura? Em especial, como foi a decisão de eleger o bronze como matéria-prima elementar?

FC: Eu comecei a modelar aos 16 anos. Eu trabalhava com massa epóxi, fazia bruxas, doendes, aqueles artesanatos hippies. Mas foi depois de ver uma exposição do Rodin, na Pinacoteca de São Paulo, que decidi que iria trabalhar com escultura e que o bronze seria minha matéria-prima.

SP-Arte: Como é o processo de desenvolvimento de uma peça? E a fundição, é algo que você acompanha?

FC: O processo de desenvolvimento de uma escultura em bronze é muito demorado e bastante trabalhoso. Consiste em modelar uma figura em argila, fazer um molde de silicone e gesso, tirar uma cópia em cera, cobrir essa peça com uma casca cerâmica, derreter a cera (por isso se chama fundição: pela cera perdida), derramar o bronze em estado líquido, soldar as partes fundidas e, por fim, fazer a pátina (processo de aceleração da oxidação do bronze que dá cor a ele, geralmente marrom, preto ou verde). No meu processo, eu não desenho ou faço esboço. Começo a modelar a figura e deixo que ela vá me mostrando o caminho. E acompanho o momento inteiro na fundição, isso é fundamental para o trabalho sair com o acabamento que eu desejo.

SP-Arte: Seu trabalho é composto a partir de cenas cotidianas e familiares, mas que muitas vezes passam despercebidas. Você se considera um observador atento? Como você escolhe as narrativas a serem trabalhadas?

FC: As cenas e narrativas compostas pelos meus trabalhos podem ser experiências pessoais, histórias ouvidas ou mesmo histórias inventadas. Eu me considero mais um contador de “causos” do que um observador atento.

SP-Arte: O que te chamou atenção na exposição “Histórias afro-atlânticas”? Teria alguma obra ou artista que você gostaria de destacar?

FC: Me chamou atenção o fato da mostra “Histórias afro-atlânticas” ser muito mais do que uma exposição de arte, dela ser um registro histórico em que os negros são os produtores e os protagonistas de suas próprias histórias. Gostaria de destacar o trabalho minucioso de pesquisa feito pelos curadores. Eu acho que cada obra tem sua importância na construção do todo – são peças fundamentais para que o conjunto seja harmonioso. Sem dúvida, essa exposição será uma daquelas que ficará para sempre em nossas memórias.

SP-Arte: A escultura “Amnésia” integra a mostra no Masp. Você poderia nos contar um pouco sobre a história da peça? Como ela foi concebida e como chegou a exposição?

FC: A escultura “Amnésia” fazia parte da minha exposição individual “Se precisar, conto outra vez” (2016). Essa mostra buscava narrar novas versões para a história oficial do Brasil e o trabalho “Amnésia” se relaciona com isso ao tratar do embranquecimento da população negra, um lado perverso da “mestiçagem”. O personagem da escultura simboliza a última pessoa a sofrer esse processo, a lata de tinta que o garoto despeja em seu próprio corpo não tem material suficiente para cobri-lo por inteiro. Como o bronze sempre serviu para registrar um momento histórico, não seria diferente com esse garoto.

O Hélio Menezes, um dos curadores da exposição “Histórias afro-atlânticas”, acompanhou de perto a minha individual. Além disso, escrevi para Lilia Schwarcz para apresentar minha recente produção e para convidá-la à mostra . Ela avisou o Adriano Pedrosa, que também foi conferir meu trabalho. Logo, o grupo curatorial estava bem familiarizado com essa série e o convite para participar da exposição no Masp surgiu no início deste ano, quando as coisas já estavam bem encaminhadas.

SP-Arte: Essa mesma escultura também esteve na exposição “Queermuseu”. Como você enxerga a liberdade de expressão na produção de artistas?

FC: Estamos vivendo um momento muito sombrio na sociedade brasileira em todas as áreas, não apenas nas artes. Como artista, acredito que posso continuar falando sobre os assuntos que me são urgentes sem perder a sutileza e a beleza. Há milhares de formas de se falar de amor, você só precisa encontrar a maneira adequada para cada situação.

SP-Arte: Seu trabalho tem um tom político e social bem forte. Você acredita na arte como vetor de mudança?

FC: Eu não vejo meu trabalho como político, social. Busco ter uma produção que se comunique com todos, sem criar um barreira hierárquica de conhecimento, esse é o barato pra mim! Eu vejo mudanças na minha própria vida. Arte é muito mais do que um objeto de contemplação!

SP-Arte: Quais projetos você tem pela frente?

FC: Participo de algumas exposições nas quais se destacam “Resignifications – Black Mediterranean”, em Palermo, na Itália, organizada pelo nigeriano Awam Amkpa. Em julho, reabre a exposição “Queermuseu”, no Parque Lage (RJ), e, em agosto, “Open Spaces”, no Kansas City, Missouri (EUA), com curadoria do Dan Cameron.

 

Fonte: SP-Arte

 

Ler mais

Entrevista com o artista brasileiro Hal Wildson

por Eneo Lage

 

Não é novidade para ninguém que viver da arte no Brasil não é fácil. Nosso país está repleto de artistas talentosos que estão sempre correndo atrás de ganhar a vida por meio do seu trabalho. O artista brasileiro Hal Wildson, residente de Goiânia, é um bom exemplo disso. Vindo de uma família humilde e com uma história de vida simples, Hal procurou enxergar além, por meio da arte e já soma milhares de seguidores nas redes sociais, além de exposições pelo Brasil e pelo mundo.

Nessa entrevista exclusiva ao INSPI, Hal nos leva a conhecer um pouco mais sobre o seu trabalho, suas referências e sua inspiradora história de vida. Confira:

 

INSPI: Suas criações carregam uma identidade bastante marcante. Como você trabalhou seu estilo de arte ao longo de sua carreira?

Hal Wildson: Tudo começou de forma muito natural. Em 2007 perdi minha vó, pessoa muito importante em minha vida, foi ela quem me criou sozinha. O sonho dela era reformar a casinha que morávamos, mas, naquele tempo a situação financeira não era das melhores. No ano que ela faleceu eu decidi de alguma forma realizar o sonho dela . Pensei: ” vou reformar a nossa casa, mas como fazer isso sem dinheiro?”. Foi aí que iniciei a minha primeira grande colagem, utilizando grude (um tipo de cola caseira feita com polvilho e água) e todos os livros e apostilas que eu tinha em casa, colei pedaços de papel por grande parte da casa. No final, gostei muito do resultado e decidi desenhar por cima das tipografias. E assim nasceu esse estilo tão característico da minha estética. Nos últimos 10 anos muita coisa mudou no meu estilo, mas a essência do processo híbrido de colagem, poesia e desenho permanece.

INSPI: Quais são as técnicas que você utiliza em seu trabalho?

Hal Wildson: Nesses 10 anos de estudos já transitei por muitos materiais, acho importante que o artista tenha uma bagagem diversa de estudos e processos.

Atualmente o meu trabalho é o resultado da mistura de colagem manual, digital, desenho manual, literatura e fotografia, o que chamo de “Poesia Visual”.

Além desses estudos, também trabalho com colagens orgânicas (feitas com materiais orgânicos: galhos de arvore, folhas e etc.) e também intervenções urbanas interativas.

INSPI: Atualmente você vive da sua arte? Quais os desafios?

Hal Wildson: Sim. Há 3 anos vivo exclusivamente da minha arte. Os desafios são diários, por isso busco sempre me reinventar , a busca constante por novos experimentos é o combustível que me faz entender minha arte como trabalho, mas principalmente como missão. Gostou de criar, sem a criação minha vida não teria sentido, gosto de inspirar as pessoas e de trazer mensagens, esse é o meu papel como artista. Lidar com a auto crítica e com o mercado de arte são meus principais desafios.

Como vender minha arte sem perder minha essência? Me pergunto isso diariamente. Uma das formas de me adequar e sobreviver a isso é separando a minha agenda, em alguns dias faço as encomendas dos meus clientes, e em outros faço arte simplesmente pelo puro prazer e propósito de fazer arte.

INSPI: Qual é o requisito para escolher os personagens que você retrata em suas obras?

Hal Wildson: A cultura da América Latina é a minha grande inspiração. Gosto de investigar questões do cotidiano, a simplicidade das pessoas, suas histórias e motivações. Muitos desses personagens são fotografias que faço por onde ando, outros são resultados do trabalhos de outros fotógrafos e artistas.

INSPI: Que artistas te inspiraram a ser um artista também? Quais são as suas referências?

Hal Wildson: Atualmente me inspiro muito em Frida Kahlo e em Vik Muniz. Admiro a história de Frida e a forma como ela transformou toda dor em sentimento, em luta, em arte… vejo isso em minha trajetória. Já o Vik Muniz é o tipo de artista que me espelho, gosto das inovações e da sua forma de fazer arte.

INSPI: Das suas obras, qual você mais gosta?

Hal Wildson: Sou um artista muito auto crítico. Tem dias que não gosto de quase nada do que faço. Não tenho uma obra preferida, mas tenho um carinho especial pela série de intervenções urbanas : “DECIFRA_ME”. Esse foi um projeto que criei esse ano com o objetivo de gerar interação entre as pessoas e a arte. Crio colagens urbanas em relevo pelos muros da cidade, cada obra possui um enigma a ser decifrado, as pessoas que descobrem o segredo através das pistas são presenteados de alguma forma com a minha arte. Em 2018 pretendo dar mais força a esse projeto.

INSPI: Como você trabalha a divulgação da sua arte?

Hal Wildson:A internet é minha principal ferramenta. Atualmente o Instagram é a minha maior fonte de divulgação. Através das redes sociais consigo fazer amigos e clientes. Trocando ideias e conhecendo pessoas divulgo meu trabalho, conheço marchants influentes que acabam impulsionando minha arte. Dessa forma já consegui exposições fora do Brasil (Nova Iorque e Los Angeles, EUA) além de clientes em mais de sete países além do Brasil.

Movimentar as redes diariamente é primordial para que mais pessoas possam conhecer nosso trampo.

INSPI: Gostaria de trabalhar em colaboração com alguém?

Hal Wildson: Sim, com Vik Muniz.

INSPI: Que importância você dá para a arte na formação do individuo?

Hal Wildson: Total. A arte possui um papel transformador. Faz as pessoas olharem diferente para o próximo, faz a gente percorrer caminhos por onde nunca passamos. Posso dizer que a arte me salvou. Venho de uma família com histórico conturbado de violência, drogas e alcoolismo, não tive uma criação de “pai e mãe” e iniciei a minha vida adulta com 14 anos,. Nesse período eu já era independente: morava, trabalhava, pagava as contas de casa e corria atrás dos meus objetivos. Ser artista me ajudou a entender minha história com outros olhos, a continuar sonhando e criando a minha forma de vencer.

 

 

Fonte: INSPI  (por Eneo Lage)

 

Ler mais