Entrevistas

Harold von Keller e a influência de seus antepassados, patrono e mecenas de Matisse e Picasso

 

Esse mês a DOMI teve o prazer de conversar com Harold von Keller, um artista um tanto misterioso, que adora passar os dias, literalmente, recluso em seu ateliê, se dedicando ao trabalho. Muito severo e crítico com sua pintura, sempre exprimiu suas preocupações em todos os campos do pensar, jamais sucumbindo às tentações comerciais.

Harold nasceu em Paris em 1948. e emigrou com a família para o Brasil em 1955. Cursou Artes no Instituto de Artes da UFRGS, recebendo o premio Bolsa Brossard após sua graduação. Pinta desde sua infância, pois já nasceu em um ambiente artístico: seu pai era joalheiro escultor e também esculpia adereços para Etienne Aigner, famosa marca do ramo do luxo. Pelo lado materno, é bisneto de Sergei Ivan Shchukin, famoso colecionador russo e patrono de Matisse e Picasso.

Começou a expor seus trabalhos, bem cedo, ainda nos anos 70 em diversas galerias: Alencastro Guimarães, galeria Delphus, Paulo Capelari, Museu do Trabalho, clube Juvenil, Galeria Obino, entre outras.

Confira abaixo como foi esse bate-papo inspirador

 

Quem é Harold von Keller? Me fale um pouco sobre seu início de carreira e o artista que você é hj

Embora eu tenha manifestado interesse pelas artes desde a infância, a minha dedicação exclusiva e mais intensa iniciou-se com a formação no curso de Belas Artes na década de 70.

Como todo artista, de inicio a pintura era figurativa, passando depois a me interessar pelo abstrato e expressionismo. Também tive interesse pela pintura geométrica, pois sempre procuro me renovar com novas técnicas e desafios.

 

O que exatamente você faz ou no que consiste o seu trabalho?

Atualmente estou pesquisando novas fontes de expressão buscando novos caminhos dentro da arte, não apenas como pintura, mas também com novas técnicas.

 

Por que escolheu a pintura como forma de se expressar? Fale um pouco sobre suas influências e inspirações

Escolhi a pintura como meio de expressão por influencia dos meus antepassados, os Botkin e o Shchukin, respectivamente meus tios bisavós e bisavô, que foram grandes colecionadores e incentivadores das artes na Russia e na Europa em geral. Meu bisavô foi patrono e mecenas de Matisse e Pablo Picasso os quais pintaram grandes obras especialmente para ele, como a Dança, a Musica, e grande parte das obras que fazem parte do Museu Hermitage e outros museus russos.

Na juventude tive o incentivo do pintor húngaro, Farago, residente em Porto Alegre, mas também convivi com grandes artistas contemporâneos como Sicart, Petrucci, Ernesto Frederico Scheffel, Ado Malagoli, Ibere Camargo, dentre outros.

 

Como foi seu caminho para chegar até aqui? Além das suas conquistas e satisfações, quais foram seus grandes desafios?

Meu grande desafio é manter-me coerente com a minha visão a respeito da arte, em especial da pintura, dentro do modo como a entendo, visando não apenas a parte comercial, mas principalmente a manifestação do que entendo como arte propriamente dita.

 

Hoje em dia, com sua experiência como artista e uma vida toda dedicada à carreira, quais você diria que são os grandes desafios de um artista?

Entendo que o grande desafio do artista é poder manter-se fiel ao que pretende expressar com sua arte, sem se deixar corromper pelas questões financeiras, porém isso traz como consequência, não raras vezes, grandes frustrações. Mas, ainda assim, meu conselho a quem está iniciando na carreira das artes é que busquem sempre a melhor forma de expressar seus sentimentos em relação a ela, não sucumbindo aos modismos e a tentação de ganho fácil.

 

Se vc conseguisse resumir todo o seu aprendizado ao longo da sua carreira, em uma, duas ou três sugestões que vc gostaria de ter recebido quando era mais jovem, quais seriam essas sugestões?

Eu diria prestigiar bons artistas ou frequentar bons museus para formar um gosto estético mais refinado, mas sempre procurando assimilar sem ser um imitator, desenvolvendo seu próprio caráter, seu próprio estilo. Penso que também é essencial não se deixar facinar pelo ganho fácil em detrimento da honestidade estética. E, finalmente, trabalhar muito e muito!!!!!

 

Onde mais vc quer chegar? Me fale mais sobre seus projetos, seus planos..

Meus projetos visam sempre a renovação e a melhor forma de expressão, dentro das limitações próprias de cada ser humano, porém buscando sempre aprimorar a técnica e sobretudo a satisfação pessoal e também dos que contemplem meus trabalhos, de pintura, escultura e desenho.

 

 

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Fernando Feierabend, em entrevista completa feita por Alberto Beuttenmüller

 

Alguns anos atrás, o ilustre Alberto Beuttenmüller, poeta, escritor, jornalista, professor e curador de arte, teve uma longa conversa com Fernando Feierabend, nome conhecido das artes plásticas no Brasil. Nessa entrevista, Fernando falou sobre quase tudo: seu começo no mundo das Artes, seus primeiros clientes, seus desafios, seu processo criativo e muito mais. A DOMI teve acesso a essa deliciosa entrevista e publica aqui na integra para você..

 

Qual foi seu primeiro contato com as artes plásticas? Quando as artes entraram no seu mundo?

Vou te contar uma história que resume o meu primeiro contato com as artes plásticas, minha história e um sonho de criança.  Minha mãe freqüentava escritórios de arte e galerias, além de colecionar obras de alguns artistas. Sempre fui muito ligado à pintura e a acompanhava nessas visitas.

Quando eu tinha 11 ou 12 anos, talvez 1979 ou 1980, muito jovem ainda, estive com ela em uma galeria, antiga Marques Galeria, paramos em frente à vitrine e lá estava exposto um Fukushima, marrom, de uma beleza incrível, que me causou um impacto que eu não compreendi naquele momento.

Estudei arquitetura na Faculdade de Belas Artes de São Paulo com professores como Renina Katz e Paulo von Poser. Em 1991, aos 25 anos, me formei arquiteto. Em 1992, fui para a Alemanha cursar "kommunikations design" (design de comunicação). De lá, acabei viajando para a Itália e voltei ao Brasil depois de cerca de nove meses na Europa.

Aqui, me matriculei no Liceu de Artes e Ofícios e fiz durante dois anos o curso de pintura. Logo comecei a pintar diariamente, visitando posteriormente galerias e apresentando meu trabalho.

Em 1997, recebi a ligação do marchand da Marques Galeria, que conseguiu meu contato quando eu pintava o painel do aeroporto de Congonhas. Comecei a trabalhar com ele e nos tornamos amigos. Como arquiteto, fiz também alguns trabalhos para ele e seus familiares.

No ano de 2001 fiz o projeto e a obra da reforma da galeria, depois chamada New York Gallery. Quando fomos tirar o tapume para inaugurar o espaço, parei em frente à vitrine do lado de fora e lá estava meu quadro na mesma vitrine que eu havia visto o Fukushima aos 12 anos. Eu estava de pé, mas ali em frente, desta vez, era a minha obra.

 

Existiu ou existe uma pessoa em especial que lhe inspirou neste caminho ou lhe incentivou?

São muitas e por diversas e diferentes razões.

Cláudio J. P. Saltini foi quem me deu o ponta-pé definitivo e mais importante.

Radha Abramo, por olhar meu trabalho com carinho e seriedade.

Márcia Cristina Anteghini, arquiteta de talento, amiga em todos os momentos.

Cláudia Mussi, responsável por este projeto.

Alberto Beuttenmüller, Lúcia Py, Cris e Pedro Barbastefano, Mário e Malvina Gelleni, da galeria Portal, Sylvio Alves de Barros, Eduardo Karchvartanian, Marlene e Felipe Figliolini, Aparecida Marques Barbosa, Cléo e Marques, Manoel Bezerra da Silva, Hilmar Diniz Paiva. Casa Elias, Mauro e Carlinhos, Tran Tho, Cookie, minha esposa.

Todos que possuem obras minhas, que perpetuam o meu trabalho, Marina Levy, Marcelo Mello, Ana Cristina Canettieri,  Celma e Celso Ferro, Juliana Ribeiro Lima, Fábio Lima, Eliane Fratte, Ricardo e Mariana de Carvalho Alves, , Heloisa Fragetti, Vera Arantes Campos, Ricardo e Cibele Bachert e Wagner Bisco.

 

Em que momento se viu ou foi reconhecido como artista plástico?

Em 1992, eu tive a convicção de que estava fazendo um bom trabalho, naquela época eu já compreendia todo o processo criativo do início ao fim.

Mas o reconhecimento veio dois anos depois, quando levei meu trabalho num sábado de manhã para um pintor amigo meu, que já era famoso e tinha um atelier que servia como galeria.

No momento em que cheguei, ele estava atendendo um cliente e mostrando seu acervo. Me pediu que deixasse o trabalho ali e aguardasse ele terminar a conversa.

Em dado momento ele me chamou e disse que o cliente havia gostado muito de tudo que tinha visto, mas que gostaria de comprar o meu quadro. Meu amigo foi muito generoso, eu não sabia nem a que preço poderia vendê-lo. O cliente era de Maringá, disso me lembro. Abriu a carteira, me pagou e levou o quadro na mesma hora.

 

Você decidiu seguir essa carreira por vontade própria ou porque sempre lhe falavam que você tinha vocação para artista plástico?

Creio que fui levado pela minha necessidade de pintar, vocação é uma coisa muito subjetiva e minha necessidade de pintar era demais objetiva. Nunca soube o que seria, sabia o que queria fazer.

 

Quem foram seus primeiros clientes?

Vendi meus primeiros trabalhos para amigos e familiares. Pintava por necessidade e precisava comprar material, tintas, telas. Para calcular o preço, eu pegava o valor que gastava em tintas e telas e vendia a obra pelo dobro, para que eu pudesse comprar material para pintar outros dois trabalhos.

 

Você não faz projetos ou estudos para suas pinturas?

Não faço para meus quadros, apenas para projetos especiais que envolvam outros profissionais ou onde utilizo materiais que não são do meu dia-dia.

Quando pinto a relação é direta com minha obra, todos os meus quadros podem ser considerados projetos, de certa maneira. Tem uma consideração interessante que o arquiteto Steven Holl faz sobre a arquitetura, a música e a pintura:  “O percurso da arquitetura deve conduzir do abstrato ao concreto, do não formado ao formado. Enquanto um pintor ou um compositor podem se deslocar do concreto ao abstrato, um arquiteto deve trabalhar na direção inversa, incorporando gradualmente as atividades humanas no que começa como um diagrama abstrato”.

 

Quanto tempo você demora para fazer um trabalho?

Não tem um tempo definido, já pintei quadros muito rapidamente, e eram trabalhos muito bons. Hoje desconfio de quadros que saem muito rápido. Deixo eles descansarem um pouco. Não gosto de ficar muito tempo também em um quadro que não me responde.

Muitas vezes trabalho em um quadro e não consigo o que quero, deixo ele de lado. Em dado momento volto e em poucas horas ou mesmo duas pinceladas, tenho ele pronto.

Outro dia ouvi uma máxima que achei interessante: quando você olha para o seu trabalho e ele já não se parece seu, é porque está ganhando asas e ficando ou já está pronto.

 

Mas você não tem aquela mania de ficar meses mexendo num mesmo trabalho?

Não gosto de conversas que se alongam com o quadro, quero que ele flua e me indique caminhos. É preciso compreender o tempo da obra e não insistir ou forçar as coisas. Isso vale pra vida também [risos]. Gosto de sentir o trabalho fluir, vou buscando e encontrando, buscando e encontrando, cada quadro tem um caminho próprio, deve ocorrer como se fosse sem esforço.

 

Você tem um horário preferido para trabalhar o é movido pela inspiração?

Já gostei de trabalhar à noite ou de madrugada. Hoje prefiro o dia. Acredito na inspiração, mas ela pode ser guardada e bem guardada e trago ela quando vou pintar. A inspiração pode ser estocada, não é como a energia elétrica [risos]. Aliás, como eu disse anteriormente que já pintei quadros muito rapidamente, hoje gosto de conversar com a minha inspiração. Meu tempo hoje é diferente. O fazer me interessa. É através do fazer que se dá vida às ideias.

“O mundo é dos que o conquistam, não dos que sonham em conquistá-lo, ainda que com razão”, já dizia Fernando Pessoa. Existem milhares de pintores que nunca pintaram, cantores que nunca cantaram, estes não me interessam.

 

Qual o item mais indispensável no seu estúdio?

Gosto de ter todo o material que preciso em mãos. Gosto de boa luz, boa música e me sentir confortável no espaço onde estou trabalhando. No atelier a circulação e o acesso a tudo me é indispensável. De qualquer maneira, se não tenho tudo disponível, preciso saber o que tenho em mãos para trabalhar, não gosto de interromper meu trabalho por falta de uma cor ou de materiais. Se não tenho um vermelho específico ou um verde, nem cogito a presença dele no trabalho para não me atrapalhar.

Tenho uma relação de afeto e cumplicidade com os materiais. Quero que eles sintam que estão sendo transformados em algo novo.

 

De que forma a pintura exerce influência no seu cotidiano?

De diversas maneiras, o diálogo franco com os materiais, a expectativa, o tempo que é necessário para secagem e finalmente quando tenho a obra pronta. Mas um trabalho não se encerra aí, ele tem que circular e encontrar seu dono. Penso que nada está definitivamente pronto e nada também está definitivamente inacabado.

Somente o que negamos está pronto e no meu trabalho não procuro a negação, me relaciono com a aceitação e procuro soluções. Recuso as dúvidas quando estou trabalhando. A dúvida é da família da negação.

Quando o trabalho está pronto, a relação se inverte e cito de novo Steven Holl: “Não é o que o artista aceita, mas sim o que ele recusa o que define o significado de sua obra”.  Isso vale para a minha vida cotidiana.

 

Qual foi a encomenda que mais mexeu com seu ego, como lida com trabalhos por encomenda?

Gosto de encomendas, mas gosto de clientes que saibam respeitá-las. Quero que eles comprem o meu trabalho, não o meu quadro propriamente dito.

Dois momentos foram importantes: o painel do lobby do Galleria Plaza em Campinas, em 2002, e o quadro que fiz para a recepção da Audax Soluções Financeiras, também em Campinas, em 2012. Não creio que mexeram com meu ego propriamente dito, mas considerei e aceitei a oportunidade.

 

Participa de algum coletivo de artistas, mesmo que não envolva a produção de obras, mas pela discussão das expressões ou pelo puro contato com seus pares?

Não participo, tenho diversos amigos artistas com que vou a exposições e converso, mas pouco sobre arte. Conversamos sobre tudo, mas pouco sobre o trabalho de cada um. O trabalho deve dar o assunto, e não ser o assunto em si. Quem deve conversar sobre meu trabalho é alguém que o conheça, daí a importância do crítico de arte para o artista.

 

Você gosta que comentem ou falem do seu trabalho?

Gosto sim. Uma análise crítica, de pessoas especializadas, ou quando falam com o coração é bem-vinda. Gosto da frase que diz: “Sempre tenho disposição e vontade de aprender, mas nem sempre que me ensinem” [risos].

 

Como aconteceram e acontecem as mudanças no seu trabalho?

Muitas vezes por razões banais, um detalhe completamente fora de explicação. Minha mulher uma vez viu um quadro meu, antigo, na casa de um cliente e disse que gostaria que eu pintasse um novo que fosse daquela fase, parecido. A partir dali, fiz um trabalho e mudei de fase novamente, que durou sete anos, é a fase que chamei de Horizontes.

Existe um momento também, quando viajei pra Europa, que meu trabalho mudou bastante, como dá para ver no projeto Encontros.

 

Onde você encontra ideias para o seu trabalho?

Elas podem acontecer em uma experiência simples ou banal. Posso encontrá-las uma, duas ou três vezes em um dia. Quando não acontece, crio condições para que elas apareçam.

Tem uma frase de Abraham Lincoln que diz “Não se pode criar experiências, é preciso passar por elas”.

No caso da inspiração e das ideias creio ser possível criá-las.

 

Você tem uma rotina de ir a museus e galerias?

Adoro ir a museus, galerias de arte e institutos de arte, como o Tomie Ohtake e o Moreira Salles, em São Paulo. Gosto dos lugares onde temos o tempo necessário para ver as obras. Museus com obras contemporâneas e especialmente os grandes pintores são os que mais frequento. Gosto de levar meus filhos e ver crianças frequentando museus. Um país que quer ser desenvolvido deve ter museus, não só galerias.

 

Qual foi a última mostra que o surpreendeu?

A exposição dos Gêmeos e do Pancetti, ambas na Faap. As obras e a montagem estavam maravilhosas. Beatriz Milhazes e Daniel Senise na Pinacoteca também.

 

Qual obra de arte você gostaria que fosse sua?

Esta pergunta eu poderia entender como o trabalho que fosse meu no sentido que eu tivesse feito, ou gostaria de ter feito. Assim, te diria que são os trabalhos de difícil realização.

São alguns artistas de quem admiro o trabalho e teria na minha coleção, como Yolanda Mohalyi, Mabe, Fukushima, Gonçalo Ivo, e os grandes mestres como Paul Gauguin, Pissaro, George Innes e Eugéne Bodin.

 

O que a arte representa para você?

Creio que a arte é o que há de mais importante para o ser humano, é o que há de mais objetivo no mundo, o resto é tudo relativo e subjetivo.

 

Qual a importância do artista plástico?

Creio na importância do ofício, do trabalho. Mas acho que o artista plástico não tem importância nenhuma, assim como ninguém tem importância. Somos nós que damos valor ou importância às coisas.

 

Você vive da sua arte?

Não vivo da minha arte. Eu faço uma vida da minha arte.

 

Sente-se realizado com sua profissão? Por quê?

Eu me sinto realizado. Pinto o que quero e compram meu trabalho, pagam por ele.

No dia em que as pessoas descobrirem que um quadro tem valor quando comprado do artista, do marchand ou da galeria, este é seu valor.

As grandes coleções foram feitas compradas dos artistas ou de seus representantes.

Quem deve ficar rico com a valorização de uma obra de arte é quem paga pelo trabalho do artista, não quem paga ao mercado.

 

Se você não fosse artista plástico, qual profissão você escolheria?

Diplomata ou trabalharia no mercado financeiro.

 

Quais sãos os seus sonhos?

Nunca tive sonhos, no sentido talvez a que você se refere.

Sou o que sou e continuo sonhando, ainda sim [risos].

 

Qual é sua birra com o mundo da arte?

Não tenho muito o que falar, nem sei se de fato existe mercado. O que existe é compra e venda de obras. Houve um momento nos anos 1970 que havia mercado. As coisas não são isoladas, coisas importantes aconteciam naquele momento na literatura, no cinema, na própria televisão. Hoje o que existe são conversas esquizofrênicas que constroem e destroem simplesmente.

Funciona, como dizia Camus, prevendo um futuro próximo: “O mundo vai ser movido pela violência e pregação”. É o que temos. O mercado me parece burro.

Aproveito para contar uma história que li e repito aqui. Um cliente entrou em um atelier de um artista importante e queria comprar um trabalho, perguntou o preço e o artista disse: R$ 10 mil.

O cliente pagou e falou ao artista: eu teria pagado R$ 20 mil se você dissesse que este era o preço. O artista respondeu: e eu teria te vendido por R$ 5.000.

Ali naquele momento o dinheiro era secundário e deve ser quando falamos de arte.

O que importa é a relação de confiança entre as pessoas, artista, galeria, colecionadores. Não sei onde encontro esta relação no mercado.

 

Qual foi sua obra mais importante na vida?

A minha própria vida.

 

 

 

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Claudio Edinger, um dos mais importantes fotógrafos do Brasil...

 
Claudio Edinger, um dos mais importantes fotógrafos do Brasil, nasceu em 1952 no Rio de Janeiro, filho de pai alemão e mãe russa. Reconhecimento internacional e incontáveis prêmios, do calibre do Prêmio Hasselblad, Prêmio Abril de Fotografia, One of The Year's Best Books (revista American Photo por Old Havana) e Prêmio Ernst Haas, acompanham esse fotógrafo pela grandiosidade e sensibilidade impressionantes em seu trabalho.

Bastante acostumado a expor em diferentes galerias ao redor do mundo, dentre elas no Maine Photographic Workshop, EUA; International Center of Photography, EUA; Galeria Arte 57, São Paulo; Casa 11 Foto, Rio de Janeiro e Photographer's Gallery, Londres; atualmente vive em São Paulo e, mesmo com a correria decorrente do trabalho e da abertura de sua mais recente exposição, Machina Mundi NYC, na Galeria Lume, que acaba de acontecer, Claudio Edinger reservou um tempinho para um bate papo rápido e delicioso com a DOMI que você precisa conferir..


Quem é Claudio Edinger? Tenho absoluta certeza que todos esses adjetivos maravilhosos recebidos ao longo dos anos, através inúmeros artigos e reportagens sobre você, dentro e fora do país, lhe fazem jus perfeitamente. Mas como você se definiria?
 
Sempre acreditei que todos temos extraordinárias possibilidades, somos o universo encapsulado em um indivíduo. Todos somos isso. Descobri que tinha temperamento de artista bem cedo. Com dez anos de idade fiquei de castigo no colegio Rio Branco em SP. Tive que escrever cem vezes no quadro negro que dali em diante iria me comportar bem. Comecei a escrever e de repente mudei a letra, mudei o tamanho, praticamente fiz uma instalação, cada repetição de um jeito. Na hora não me dei conta mas anos depois percebi que ali surgiu minha necessidade de criar, de descobrir até onde vão nossos limites, descobrir todas as possibilidades de um ato, de uma criação. Pratico meditação há mais de 45 anos, está tudo relacionado com o que faço. Sou isso, só mais um que não se conforma em ser apenas mais um. 


O que exatamente você faz ou no que consiste o seu trabalho hoje?
 
Meu trabalho é de pesquisa. Gosto de comparar a fotografia à medicina. Temos fotógrafos cirurgiões, clinicos gerais, oftalmologistas, etc. Eu adoro pesquisar estudar, procuro a cura para doenças incuráveis — que em filosofia é a tentativa de descobrir quem somos e que raios estamos fazendo aqui, nesta bola giratória, imensa mas que é uma partícula comparada com os outros planetas, flutuando no espaço.


Por que escolheu a fotografia como forma de se expressar? Fale um pouco sobre suas influências e inspirações
 
Desde menino li muito. Adoro ler, passei a adolescência lendo os clássico, criando fotogramas do que lia. A arte fotográfica é pura terapia, extraímos segredos de nosso interior que, confrontados por nós mesmos, nos curam. A fotografia tem esse poder. O tempo destrói todas as coisas. A fotografia é o antídoto.

Como foi seu caminho para chegar até aqui? Olhando para trás, além das suas conquistas e satisfações, quais foram seus grandes desafios?
 
Com 23 anos de idade mudei-me para Nova York. Tinha acabado de expor meu trabalho no MASP. Por que não levar o trabalho para expor lá? pensei. Não falava direito a lingua, não conhecia ninguém só sabia que queria fotografar. E fotografar o que eu quisesse, onde meu instinto me levasse, sempre tive dificuldades em obedecer os outros, sempre fui muito rebelde, pelo menos quando era jovem. Este geralmente é o tempramento arisco de um artista. Fiz trabalhos comerciais e estes foram muito úteis, serviram como laboratorio para colocar meus experimentos em pratica. O artista navega num mar de imprevisibilidades e isso sempre me motivou. Quanto maiores as dificuldades mais motivado eu fico. Claro diversas vezes fiquei desanimado. Tive momentos de grande aperto em Nova York. Morei no Hotel Chelsea dois anos sem pagar aluguel — dava fotos em troca para o dono do hotel.  Isso até publicar meu primeiro livro e conseguir trabalho para as revistas americanas.

Qual o conselho que você daria para alguém que está em início de carreira? Se você conseguisse resumir todo o aprendizado ao longo de sua carreira, em uma, duas ou três sugestões que gostaria de ter recebido quando era mais jovem, quais seriam essa(s) sugestão(ões)?
 
Estude muito. História da arte, da fotografia, poesia, literatura, música clássica. Pesquise muito, sempre. Produza muito. Entenda que a fotografia é muito ciumenta, não gosta de rivais. Exige total dedicação. Digo sempre que o fotógrafo é um gorila. Não adianta colocar uma fantasia numa girafa que ela não vira gorila. Ou se nasce ou não é. O jovem fotógrafo precisa resolver esta questão no início. Sou ou não fotógrafo? Se a respota for sim então esqueça o resto, saia para fotografar até encontrar seu rumo na fotografia. Vai aparecer. Converse muito com outros fotógrafos, mostre seu trabalho, esteja sempre aberto às críticas. Saiba quais críticas servem quais não. Quando fiz o livro sobre o Chelsea Hotel muitos fotógrafos me desencorajaram — "isso nunca vai virar um livro" diziam. Segui em frente porque acreditava nele. É preciso também entender que a fotografia é uma força da natureza, tem poder próprio. Se vc se alia a ela, ela cuida de vc, te dá ideias, te dá trabalho, a mágica entra em ação. Goethe diz que quando seguimos o coração, o universo conspira a nosso favor. Eu sou prova absoluta disso. 

Onde mais deseja chegar? Tirando todo esse legado que ficará no mundo para sempre, com esse trabalho incrível, sensível, generoso,... para onde mais seu coração de artista anseia te levar? Fale um pouco sobre algum grande sonho ou objetivo que deseja alcançar
 
Procuro o limite, a curva da Terra, onde nascem as nuvens, onde as estrelas se acendem. Quem faz meditação está à caça disso. Sabendo claramente que não há limites, que o mistério não tem solução. Quanto mais se descobre mais denso fica. Adoro isso. Adoro aprofundar a pesquisa. É só o que eu sei fazer. Não tenho um objetivo numérico. Meu objetivo é espiritual. Quando mais nos aprofundamos em qualquer coisa, mais descobrimos a essência do Universo. Não consigo imaginar qualquer outra forma de viver. Não trabalho, tudo o que faço, faço por imenso prazer. Quanto mais vc faz, como numa maratona em que fica facil correr, mais prazeirozo fica fazer, mais articulado vc fica. Tolstoy diz que sem saber quem somos é impossivel viver. Vivo em busca disso.
 
 
 
 
Para conhecer mais o trabalho do fotógrafo:  www.claudioedinger.com
 
 


 
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Ery Nunes e seus abstratos expressionistas

 

Quem?

Moro em João Pessoa, gosto de ler, estudar os grandes mestres, adoro fazer um prato diferente para os que me rodeiam e amo pintar.

O que?

Pinto o abstrato expressionista, fragmento a cor, elegendo a forma, óleo sobre tela, extremamente exigente comigo mesmo.

Por que?

A arte já vem intrinsicamente com o artista, ele é apenas o instrumento. Em algum momento da vida, ele decide por desenvolver esse dom, ou caminhar por outras estradas.

Como?

Observo a vida, vejo as imagens, sinto as emoções. Construo minha própria cena e a desconstruo em fragmentos pictóricos.

Quais suas maiores dificuldades?

Minhas dificuldades são a ausência de agenda pra estudar bem mais e pintar, pintar e pintar.

Onde deseja chegar?

Quero sempre chegar no sentimentos das pessoas, extrair delas : felicidade, alegria, paz e caminhos. Vocês não imaginam a ansiedade de mergulhar na imensidão de uma tela branca e extrair cores e formas, construir o que não existia e de algum sentido fazer por apenas um minuto alguém feliz.


 

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Zé Barretta, um fotógrafo documentarista com olhar super artístico

Zé Barretta é um fotógrafo documentarista vivendo em São Paulo. Sua experiência com foto jornalismo e retratos já tem mais de 10 anos, trabalhando como fotógrafo free-lancer para o jornal Folha de São Paulo, clientes corporativos, como o Facebook América Latina, Serviço de Comércio Social Sesc, etc.

Seus trabalhos documentais foram publicados inúmeras vezes, dentro e fora do Brasil, dentre eles no Projeto Habitat (Itália), Folha de São Paulo, Revista Vida Simples, Revista OLD, Mira Fotográfica Chile e também participaram da Mostra SP de Fotografia 2014, Festival Foto Argentina, Prêmio Foto Porto Seguro 2010, selecionados na Visura Photo Grant 2016 e AI-AP Latin America Fotografia 5.

Recém chegado de uma residência artística na Argentina, Zé Barretta conversou com a DOMI para contar um pouco mais sobre ele e sobre seu trabalho. 

 

Quem? 

Fotógrafo há 10 anos. Gosto de pensar a fotografia como uma forma de contato com mundos diferentes do meu, que é basicamente a de um paulistano de classe média. É incrível como vivemos em uma bolha, onde as pessoas pensam parecido, tem gostos parecidos, planejam as férias de forma parecida, se divertem de forma parecida. Só com a fotografia fui capaz de furar essa bolha e ter contato com universos diferentes, de uma favela a uma festa da alta sociedade. De uma ocupação na periferia à um restaurante caríssimo nos Jardins, de uma produção de cacau na Amazônia a uma cidade fantasma nos pampas argentinos. Sou bastante curioso e, claro, adoro viajar, a fotografia entrou na minha vida por aí. Não cresci pensando que me tornaria fotógrafo, nem imaginava que isso fosse acontecer.
 

O que? 

Bom, sou fotografo rs. Na verdade a fotografia é apenas uma parte do processo que envolve pesquisa, contatos, logística e depois edição, tratamento, mostrar o trabalho, tentar publicar ou expor, é bastante coisa, toma tempo. O processo criativo no entanto é bem caótico, não sei se posso dizer que tenho um. O trabalho pode surgir de uma leitura, de uma pesquisa, de outro trabalho ou até por acaso, mas percebo que a medida que vou desenvolvendo alguns temas, vão-se abrindo outras possibilidades, um trabalho leva a outro e quando isso acontece tomamos consciência de certos aspectos que não tínhamos pensado antes, isso é bacana porque vamos aprofundando a pesquisa, é um processo vivo. Isso em meio aos trabalhos comissionados, à graduação em geografia que estou terminando e a família com o pequeno Vittorio de dois anos.
 

Por que?

Como falei, a fotografia foi entrando na minha vida aos poucos, não pensava que seria fotógrafo, esse processo levou anos. Trabalhando já há 10 anos com fotografia, mais recentemente percebi que não bastava o trabalho comissionado, o "job". Claro que é uma maneira interessante de também estar em lugares e com pessoas que nunca estaria de outra forma, e, obvio, uma fonte de renda, mas também pode ser bastante superficial. Senti falta de me aprofundar mais em temas, em explorar outras possibilidades da linguagem fotográfica, em entender melhor o tempo da fotografia, não ter a pressão do cliente ou do jornal (eu atendo a Folha de São Paulo) para trazer a melhor foto sempre. Nesse sentido que voltei à universidade e também comecei mais sistematicamente a produzir trabalhos pessoais. Então essa produção pessoal independente, que alguns chamam de autoral, é uma produção mais recente, de uns 4 anos pra cá. Tem sido uma experiência muito positiva eu acho, tenho evoluído bastante mas sei que ainda estou em busca da minha linguagem própria.
 

Como? 

Como começou o processo de criação, acho que respondi na questão anterior, mas a escolha do tema é também um processo não muito claro, meio ao acaso, de forma intuitiva. Aí é fundamental um tema que me interesse de verdade, não exatamente um tema da moda ou para dizer em termos jornalísticos, não necessariamente uma pauta quente. Tem que ser algo que me tire de uma certa zona de conforto da minha rotina de trabalho, estudo, família. Primeiramente percebi que não era preciso grandes gastos ou viagens para produzir, aqui em São Paulo tem assuntos, locais, pessoas e histórias suficientes pra uma vida inteira. É estranho mas no fundo é difícil fotografar na própria cidade, pois é difícil parar a rotina para se dedicar a um trabalho que não tem demanda alguma (exceto a minha própria), e fotografar toma tempo. Descobri depois que planejar uma viagem para fotografar pode ser bastante produtivo, já que essas demandas do dia a dia ficam temporariamente suspensas e é possível dedicar o dia todo à fotografia, uma semana inteira à fotografia, mas é preciso planejamento para que isso aconteça, não basta simplesmente viajar para um lugar legal e sair fotografando.

 

Qual seu grande objetivo? 

O grande desafio é continuar, é seguir em frente apesar dos inúmeros motivos pra desanimar... arte, jornalismo e cultura no Brasil são áreas muito pouco valorizadas e as primeiras que sofrem em épocas de crise como a que estamos atravessando. Mas esse ano apesar de difícil em termos de trabalho pago, foi muito bom em relação a publicações/exposições dos trabalhos pessoais e isso ajuda muito a continuar produzindo. Participei de três residências artísticas fora do Brasil (uma em Salamanca, na Espanha, uma em Nicosia, capital do Chipre e outra em Buenos Aires), em mostras coletivas nos festivais de fotografia de Arles, PhotoEspaña e Paris Photo, três dos principais festivais da Europa, além de festivais e publicações no Brasil. Foi um ano cheio de surpresas positivas nesse sentido e já tenho alguns projetos que pretendo desenvolver ano que vem.

 

 

 

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Lucia Costa, um dos talentos da DOMI

Lucia Costa é uma artista carioca que gosta de explorar espaços urbanos já ocupados e esvaziar as imagens de seus significados. Em seu processo criativo se inspira nas paisagens arquitetônicas capturadas através de sua lente fotográfica, desenvolvendo uma narrativa abstrata, na qual imagens fragmentadas se reorganizam tanto em fotocolagens digitais como em pinturas.

Recém chegada de Luxemburgo, onde esteve para exposição e premiação do Luxembourg Art Prize 2018, Lucia conversou com a DOMI em um rápido bate papo, nos contando um pouco mais sobre sua trajetória artística. Confira!

 

Quem?

Sou uma carioca da gema de 57 anos, casada, sem filhos e 2 gatos. Economista por formação e artista por paixão. Meio nômade, perseverante e muito inquieta.

 

O que?

Faço pinturas contemporâneas em acrílica e hiperfotografias através de colagens digitais. Desenvolvo uma narrativa abstrata inspirada na arquitetura urbana.

 

Por que?

Faço o que faço por paixão. Tento transmitir através da minha arte a minha visão de mundo.

 

Como?

Eu comecei participando de exposições coletivas organizadas pelas orientadoras das oficinas de arte que frequentei, e em feiras de arte contemporânea no brasil e no exterior. Escolho recortes da arquitetura urbana e começo a observá-los e estudá-los em relação à forma e cor. Me interessa criar novas possibilidades de ver, transformar realidades existentes em novas realidades.

 

Qual seu objetivo?

Viver de Arte

 

Onde quer chegar?

Eu quero que a minha arte seja admirada por um número cada vez maior de pessoas em todo o mundo.

 

 

 

 

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Vivi Villanova do canal no Youtube VIVIEUVI conversa com a DOMI

Toda essa popularidade e destaque não vieram da noite para o dia. Já faz um bom tempo que ela trabalha com cultura e está envolvida em projetos relacionados às Artes: música, teatro, exposições, etc. É formada em Comunicação Social e já passou por diversas agências de publicidade, revistas, TV, cinema publicitário.

Mas o que tem encantado os seguidores de seu canal no YouTube VIVIEUVI, com mais de 77 mil inscritos e com vídeos batendo records de visualizações, é o seu jeitinho todo especial e bem humorado de abordar, explicar e refletir, de forma tão gostosa e descontraída, esse assunto que amamos tanto: Arte.

A DOMI quis conhecer um pouco melhor essa mulher tão cativante que está fazendo sucesso no mundo dos apaixonados por Arte, que além de estudar muito, vem aumentando freneticamente seus números nas redes sociais, e fez essa deliciosa MINI ENTREVISTA. Confiram..

 

Quem é Vivi?

Pergunta filosófica, estou na jornada de descobrir esse “quem”. Mas na prática, sou uma mulher de 29 anos, meio cética, meio mística. Tenho um canal no youtube onde eu falo sobre arte chamado VIVIEUVI, aliás se inscreve que é divertido :)

O que você faz?

Há mais de dois anos eu posto vídeos no youtube sobre temas que rondam o universo da arte. Biografias de artistas, movimentos artísticos, exposições, pensamentos. No Facebook tenho um grupo que eu amo de paixão onde a galera compartilha notícias, vídeos, memes e muitos trabalhos pessoais. O Instagram é uma continuação disso tudo.

Por que?

Eu amo arte. Arte ressignifica minha vida. E eu fico muito feliz dedividir essa paixão com pessoas que vibram tanto quanto eu com esse tipo de expressão.

Como?

Eu parto da minha experiência com a arte que é de leiga-amante. Nessa jornada dos vídeos eu aprendi muito, mas o que me guia é o encanto. Acho que as pessoas se conectam comigo nesse lugar, no lugar da paixão. E quanto mais a gente vê arte, mais a gente quer arte.

Qual seu objetivo?

Acho que meu objetivo é reunir amigos que queiram dividir essa arte toda comigo e construir. Até agora o caminho tem sido muito rico.

Onde quer chegar?

Eu quero continuar fazendo os vídeos e trazer essa convivência da internet cada vez mais pra vida real também. Estou atenta aos sinais.. kkk

 

DOMI Galeria de Arte Online

 

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Conheça o escultor de uma das peças em destaque na exposição “Histórias afro-atlânticas”, no Masp

 

Autor de uma das obras mais comentadas na mostra “Histórias afro-atlânticas”, que estreou no fim de junho no Museu de Arte de São Paulo e no Instituto Tomie Ohtake, Flávio Cerqueira (1983) flerta com a escultura desde os 16 anos, mas foi ao ver uma exposição do francês Auguste Rodin, na Pinacoteca de São Paulo, que o artista paulistano se apaixonou pelo bronze. Desse material é feita “Amnésia”, obra que traz à exposição o tema do embranquecimento da população negra: “O personagem simboliza a última pessoa a sofrer esse processo, a lata de tinta que o garoto despeja em seu próprio corpo não tem material suficiente para cobri-lo por inteiro”.

Com curadoria de Adriano Pedrosa, Lilia Schwarcz, Hélio Menezes, Ayrson Heráclito e Tomás Toledo, a mostra reúne representações das culturas afro-atlânticas, assim como trabalhos de importantes artistas negros de todo o mundo. São cerca de 450 obras de diferentes períodos, materiais e estilos em cartaz nas duas instituições de São Paulo, até 21 de outubro.

 

Confira a seguir uma entrevista com o escultor Flávio Cerqueira:

 

SP-Arte: Como você começou a trabalhar com escultura? Em especial, como foi a decisão de eleger o bronze como matéria-prima elementar?

FC: Eu comecei a modelar aos 16 anos. Eu trabalhava com massa epóxi, fazia bruxas, doendes, aqueles artesanatos hippies. Mas foi depois de ver uma exposição do Rodin, na Pinacoteca de São Paulo, que decidi que iria trabalhar com escultura e que o bronze seria minha matéria-prima.

SP-Arte: Como é o processo de desenvolvimento de uma peça? E a fundição, é algo que você acompanha?

FC: O processo de desenvolvimento de uma escultura em bronze é muito demorado e bastante trabalhoso. Consiste em modelar uma figura em argila, fazer um molde de silicone e gesso, tirar uma cópia em cera, cobrir essa peça com uma casca cerâmica, derreter a cera (por isso se chama fundição: pela cera perdida), derramar o bronze em estado líquido, soldar as partes fundidas e, por fim, fazer a pátina (processo de aceleração da oxidação do bronze que dá cor a ele, geralmente marrom, preto ou verde). No meu processo, eu não desenho ou faço esboço. Começo a modelar a figura e deixo que ela vá me mostrando o caminho. E acompanho o momento inteiro na fundição, isso é fundamental para o trabalho sair com o acabamento que eu desejo.

SP-Arte: Seu trabalho é composto a partir de cenas cotidianas e familiares, mas que muitas vezes passam despercebidas. Você se considera um observador atento? Como você escolhe as narrativas a serem trabalhadas?

FC: As cenas e narrativas compostas pelos meus trabalhos podem ser experiências pessoais, histórias ouvidas ou mesmo histórias inventadas. Eu me considero mais um contador de “causos” do que um observador atento.

SP-Arte: O que te chamou atenção na exposição “Histórias afro-atlânticas”? Teria alguma obra ou artista que você gostaria de destacar?

FC: Me chamou atenção o fato da mostra “Histórias afro-atlânticas” ser muito mais do que uma exposição de arte, dela ser um registro histórico em que os negros são os produtores e os protagonistas de suas próprias histórias. Gostaria de destacar o trabalho minucioso de pesquisa feito pelos curadores. Eu acho que cada obra tem sua importância na construção do todo – são peças fundamentais para que o conjunto seja harmonioso. Sem dúvida, essa exposição será uma daquelas que ficará para sempre em nossas memórias.

SP-Arte: A escultura “Amnésia” integra a mostra no Masp. Você poderia nos contar um pouco sobre a história da peça? Como ela foi concebida e como chegou a exposição?

FC: A escultura “Amnésia” fazia parte da minha exposição individual “Se precisar, conto outra vez” (2016). Essa mostra buscava narrar novas versões para a história oficial do Brasil e o trabalho “Amnésia” se relaciona com isso ao tratar do embranquecimento da população negra, um lado perverso da “mestiçagem”. O personagem da escultura simboliza a última pessoa a sofrer esse processo, a lata de tinta que o garoto despeja em seu próprio corpo não tem material suficiente para cobri-lo por inteiro. Como o bronze sempre serviu para registrar um momento histórico, não seria diferente com esse garoto.

O Hélio Menezes, um dos curadores da exposição “Histórias afro-atlânticas”, acompanhou de perto a minha individual. Além disso, escrevi para Lilia Schwarcz para apresentar minha recente produção e para convidá-la à mostra . Ela avisou o Adriano Pedrosa, que também foi conferir meu trabalho. Logo, o grupo curatorial estava bem familiarizado com essa série e o convite para participar da exposição no Masp surgiu no início deste ano, quando as coisas já estavam bem encaminhadas.

SP-Arte: Essa mesma escultura também esteve na exposição “Queermuseu”. Como você enxerga a liberdade de expressão na produção de artistas?

FC: Estamos vivendo um momento muito sombrio na sociedade brasileira em todas as áreas, não apenas nas artes. Como artista, acredito que posso continuar falando sobre os assuntos que me são urgentes sem perder a sutileza e a beleza. Há milhares de formas de se falar de amor, você só precisa encontrar a maneira adequada para cada situação.

SP-Arte: Seu trabalho tem um tom político e social bem forte. Você acredita na arte como vetor de mudança?

FC: Eu não vejo meu trabalho como político, social. Busco ter uma produção que se comunique com todos, sem criar um barreira hierárquica de conhecimento, esse é o barato pra mim! Eu vejo mudanças na minha própria vida. Arte é muito mais do que um objeto de contemplação!

SP-Arte: Quais projetos você tem pela frente?

FC: Participo de algumas exposições nas quais se destacam “Resignifications – Black Mediterranean”, em Palermo, na Itália, organizada pelo nigeriano Awam Amkpa. Em julho, reabre a exposição “Queermuseu”, no Parque Lage (RJ), e, em agosto, “Open Spaces”, no Kansas City, Missouri (EUA), com curadoria do Dan Cameron.

 

Fonte: SP-Arte

 

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Entrevista com o artista brasileiro Hal Wildson

por Eneo Lage

 

Não é novidade para ninguém que viver da arte no Brasil não é fácil. Nosso país está repleto de artistas talentosos que estão sempre correndo atrás de ganhar a vida por meio do seu trabalho. O artista brasileiro Hal Wildson, residente de Goiânia, é um bom exemplo disso. Vindo de uma família humilde e com uma história de vida simples, Hal procurou enxergar além, por meio da arte e já soma milhares de seguidores nas redes sociais, além de exposições pelo Brasil e pelo mundo.

Nessa entrevista exclusiva ao INSPI, Hal nos leva a conhecer um pouco mais sobre o seu trabalho, suas referências e sua inspiradora história de vida. Confira:

 

INSPI: Suas criações carregam uma identidade bastante marcante. Como você trabalhou seu estilo de arte ao longo de sua carreira?

Hal Wildson: Tudo começou de forma muito natural. Em 2007 perdi minha vó, pessoa muito importante em minha vida, foi ela quem me criou sozinha. O sonho dela era reformar a casinha que morávamos, mas, naquele tempo a situação financeira não era das melhores. No ano que ela faleceu eu decidi de alguma forma realizar o sonho dela . Pensei: ” vou reformar a nossa casa, mas como fazer isso sem dinheiro?”. Foi aí que iniciei a minha primeira grande colagem, utilizando grude (um tipo de cola caseira feita com polvilho e água) e todos os livros e apostilas que eu tinha em casa, colei pedaços de papel por grande parte da casa. No final, gostei muito do resultado e decidi desenhar por cima das tipografias. E assim nasceu esse estilo tão característico da minha estética. Nos últimos 10 anos muita coisa mudou no meu estilo, mas a essência do processo híbrido de colagem, poesia e desenho permanece.

INSPI: Quais são as técnicas que você utiliza em seu trabalho?

Hal Wildson: Nesses 10 anos de estudos já transitei por muitos materiais, acho importante que o artista tenha uma bagagem diversa de estudos e processos.

Atualmente o meu trabalho é o resultado da mistura de colagem manual, digital, desenho manual, literatura e fotografia, o que chamo de “Poesia Visual”.

Além desses estudos, também trabalho com colagens orgânicas (feitas com materiais orgânicos: galhos de arvore, folhas e etc.) e também intervenções urbanas interativas.

INSPI: Atualmente você vive da sua arte? Quais os desafios?

Hal Wildson: Sim. Há 3 anos vivo exclusivamente da minha arte. Os desafios são diários, por isso busco sempre me reinventar , a busca constante por novos experimentos é o combustível que me faz entender minha arte como trabalho, mas principalmente como missão. Gostou de criar, sem a criação minha vida não teria sentido, gosto de inspirar as pessoas e de trazer mensagens, esse é o meu papel como artista. Lidar com a auto crítica e com o mercado de arte são meus principais desafios.

Como vender minha arte sem perder minha essência? Me pergunto isso diariamente. Uma das formas de me adequar e sobreviver a isso é separando a minha agenda, em alguns dias faço as encomendas dos meus clientes, e em outros faço arte simplesmente pelo puro prazer e propósito de fazer arte.

INSPI: Qual é o requisito para escolher os personagens que você retrata em suas obras?

Hal Wildson: A cultura da América Latina é a minha grande inspiração. Gosto de investigar questões do cotidiano, a simplicidade das pessoas, suas histórias e motivações. Muitos desses personagens são fotografias que faço por onde ando, outros são resultados do trabalhos de outros fotógrafos e artistas.

INSPI: Que artistas te inspiraram a ser um artista também? Quais são as suas referências?

Hal Wildson: Atualmente me inspiro muito em Frida Kahlo e em Vik Muniz. Admiro a história de Frida e a forma como ela transformou toda dor em sentimento, em luta, em arte… vejo isso em minha trajetória. Já o Vik Muniz é o tipo de artista que me espelho, gosto das inovações e da sua forma de fazer arte.

INSPI: Das suas obras, qual você mais gosta?

Hal Wildson: Sou um artista muito auto crítico. Tem dias que não gosto de quase nada do que faço. Não tenho uma obra preferida, mas tenho um carinho especial pela série de intervenções urbanas : “DECIFRA_ME”. Esse foi um projeto que criei esse ano com o objetivo de gerar interação entre as pessoas e a arte. Crio colagens urbanas em relevo pelos muros da cidade, cada obra possui um enigma a ser decifrado, as pessoas que descobrem o segredo através das pistas são presenteados de alguma forma com a minha arte. Em 2018 pretendo dar mais força a esse projeto.

INSPI: Como você trabalha a divulgação da sua arte?

Hal Wildson:A internet é minha principal ferramenta. Atualmente o Instagram é a minha maior fonte de divulgação. Através das redes sociais consigo fazer amigos e clientes. Trocando ideias e conhecendo pessoas divulgo meu trabalho, conheço marchants influentes que acabam impulsionando minha arte. Dessa forma já consegui exposições fora do Brasil (Nova Iorque e Los Angeles, EUA) além de clientes em mais de sete países além do Brasil.

Movimentar as redes diariamente é primordial para que mais pessoas possam conhecer nosso trampo.

INSPI: Gostaria de trabalhar em colaboração com alguém?

Hal Wildson: Sim, com Vik Muniz.

INSPI: Que importância você dá para a arte na formação do individuo?

Hal Wildson: Total. A arte possui um papel transformador. Faz as pessoas olharem diferente para o próximo, faz a gente percorrer caminhos por onde nunca passamos. Posso dizer que a arte me salvou. Venho de uma família com histórico conturbado de violência, drogas e alcoolismo, não tive uma criação de “pai e mãe” e iniciei a minha vida adulta com 14 anos,. Nesse período eu já era independente: morava, trabalhava, pagava as contas de casa e corria atrás dos meus objetivos. Ser artista me ajudou a entender minha história com outros olhos, a continuar sonhando e criando a minha forma de vencer.

 

 

Fonte: INSPI  (por Eneo Lage)

 

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