Neste mês, a Domi Galeria de Arte teve o prazer de conversar com o artista André Calazans, em um encontro marcado por sensibilidade, reflexão e paixão pela criação. Em um bate-papo generoso, o artista compartilha aspectos de sua trajetória, suas referências estéticas e o processo íntimo que dá origem às suas obras. Entre memória, intuição e emoção, Calazans revela como a arte atravessa sua vida muito além do ateliê — como forma de olhar o mundo e de traduzir em imagem aquilo que muitas vezes só pode ser sentido.
Em poucas palavras — ou imagens — quem é você quando não está produzindo arte?
Sou alguém movido por curiosidade, sensibilidade e, por que não dizer, uma boa dose de espanto. Em relação ao mundo, à natureza, às pessoas e suas atitudes e criações. Um observador que tenta entender e reciclar emoções próprias e alheias. Mesmo fora do ateliê, continuo criando — pelo menos em pensamentos e ideias.
Você se lembra do momento em que percebeu que a arte não era apenas interesse, mas destino?
Não foi um estalo, foi uma soma de acontecimentos e experiências. A escrita veio primeiro, bem antes, tenho vários livros de prosa e poesia publicados. Então veio a música e, muito depois, as artes visuais. Quando percebi, a arte estava em tudo em que eu me envolvia com prazer. Assim, acabei compreendendo que não era um simples hobby, mas uma necessidade de me expressar.
Quais experiências da sua infância ou juventude você reconhece hoje como decisivas para sua linguagem artística?
O contato intenso com livros, discos, HQs, museus e exposições. Sempre fui um frequentador de espaços e eventos culturais. Mais tarde, o trabalho com produção gráfica em agências de publicidade refinou meu olhar cromático — algo que hoje é essencial na minha pintura.
Entre técnica, intuição e emoção, qual desses elementos costuma guiar mais o seu processo criativo? Por quê?
A emoção dá o motivo, a intuição abre o caminho e a técnica resolve o problema. Mas, se tiver que escolher, a intuição costuma guiar mais — porque muitas das minhas obras mais expressivas nasceram quando eu parei de planejar demais o projeto e deixei a imagem emergir.
Quais artistas, movimentos ou referências atravessam o seu trabalho — mesmo que de forma inconsciente?
O uso expressivo da cor com movimentos fortes e carregados é inspiração do pós-impressionismo e do expressionismo. Sempre admirei Van Gogh na intensidade, a liberdade cromática de Gauguin e Matisse, a poesia visual de Paul Klee e a síntese das formas de Modigliani. E também o simbolismo de Odilon Redon e a força emocional dos expressionistas alemães, como Kirchner e Franz Marc. Finalmente, o colorismo e a profusão de elementos da art naif brasileira me conquistaram e decoraram as paredes de minha casa por muitos e muitos anos.
Se o público pudesse enxergar além da obra, o que você gostaria que fosse percebido — e que quase nunca é dito sobre você?
Que por trás da imagem há alguém profundamente interessado no ser humano e seus sentimentos e realizações. Minhas obras podem parecer impulsivas e muitas vezes até são, mas nascem de observação, reflexão e referências anteriores, legado de incontáveis artistas que nos deixaram uma vasta e significativa herança inspiradora.
Como o seu cotidiano se organiza em torno da criação: há rituais, silêncios, repetições ou improvisos que sustentam o nascimento das obras?
Não tenho um ritual fixo. A maioria das vezes começo com um desenho a grafite inspirado em uma referência artística, que costumo alterar bastante. Em outras ocasiões, parto direto para a pintura, a cor, de maneira quase explosiva, e as formas vão aparecendo aos poucos. O que existe sempre é a necessidade de silêncio interno — um momento em que o mundo externo baixa o volume e você consegue se desconectar das preocupações e das telas eletrônicas, mergulhando no processo de criação.
Como nasce uma obra sua: ela começa com uma ideia clara ou se revela durante o processo?
Das duas formas. Quando planejo demais, ganho estrutura, previsibilidade. O desenho inicial com lápis quase sempre me agrada, mas ocorre de achar que a pintura posterior não ficou boa e acabar abandonada. Por outro lado, quando começo sem desenho, a obra pode falhar de cara — ou pode ganhar uma força diferente que o planejamento jamais daria. Muitas vezes, a pintura revela algo que eu mesmo ainda não sabia que estava ali e só se revela no próprio momento da execução.
Seu trabalho passou por transformações ao longo do tempo? O que mudou em você para que sua arte também mudasse?
Sim. No início, eu buscava mais controle, cuidado e acerto, até mesmo porque comecei a estudar a técnica tardiamente. Hoje aceito mais o erro, o risco e o gesto. Isso tem a ver com evolução da trajetória — menos medo de falhar e mais abertura para a expressividade e para o "vamos ver onde isso vai dar".
Para você, qual é o papel da arte no mundo de hoje: provocar, acolher, denunciar, preservar ou transformar?
Provocar — porque a provocação abre todas as outras portas. A arte que provoca também acolhe, denuncia, preserva memórias e pode transformar quem se permite ser tocado. Em uma época de aparente superficialidade, na qual boa parte das pessoas só consegue assistir a vídeos de no máximo 15 segundos nas redes sociais, a arte é libertadora. Atualmente, em diversas camadas da população brasileira e mundial, há um crescente discurso de ódio contra a arte, a intelectualidade e a ciência. É fato que a humanidade faz movimentos cíclicos e hoje parece que vivenciamos uma certa regressão cultural. Mas isso passará, tudo passa. Tomara que passe logo.
Quais foram — ou ainda são — os maiores desafios de sustentar uma trajetória artística no Brasil?
A instabilidade financeira e a pouca valorização estrutural do artista. Viver de arte é difícil em qualquer lugar, mas no Brasil pode exigir múltiplas e intensas frentes de atuação. Planejamento, resiliência e atitude comercial acabam sendo importantes demais nesse contexto. Mas, infelizmente, todas essas atividades tendem a desviar o foco do artista do principal, que é a criação de suas obras. E o que pode ocorrer na prática é o discurso de venda ser mais valorizado que a própria criação artística.
O que você diria hoje ao artista que você foi no início do caminho — e o que ainda espera descobrir no futuro?
Comecei tarde na área e ainda estou em processo de aprendizado rs. Mas nessa curta trajetória aprendi a confiar mais na minha intuição e ter menos medo de errar. Agradeço a algumas pessoas, como amizades que me incentivaram a pintar sem deixar de expor uma visão crítica dos meus trabalhos. E também meu professor de desenho, que foi importante não só para transmitir técnicas como para inspirar confiança e tranquilidade. No futuro, espero descobrir novas formas de me expressar pela cor, novas maneiras de traduzir emoção em imagem e, principalmente, continuar me surpreendendo com aquilo que faço.
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