Garbino: "Sempre usei tintas, e lápis, tintas sobre papel, tela e madeira, as tintas primeiro a óleo, e agora uso mais a acrílica sobre tela."

Existem artistas cujas obras não nascem apenas do pincel, mas de uma vida inteira dedicada à observação profunda do humano. Nesta edição, a Domi Galeria tem a honra de apresentar uma conversa exclusiva com J.A. Garbino, um artista cuja trajetória é um convite à desaceleração e ao resgate da memória.

Pesquisador em neurociências por formação e observador por natureza, Garbino equilibra o rigor acadêmico com a leveza do "flanar" — o ato de caminhar sem rumo, capturando estórias, luzes e sombras do cotidiano para transformá-las em narrativas visuais e literárias. De Lençóis Paulista à influência marcante do expressionismo de Egon Schiele, sua arte é um mosaico que une a métrica parnasiana, o cheiro de terra das boiadas e a modernidade das séries de TV.

Nesta entrevista, ele nos revela como a perda física na infância abriu caminho para uma ganho estético imensurável, transformando o desenho e a escrita em ferramentas de compreensão do mundo. Conheça o homem por trás das telas que, há mais de duas décadas, busca a essência do "contar coisas" através das cores.

Confira a entrevista na íntegra:

Em que momento da sua vida você percebeu que a arte deixaria de ser apenas interesse ou curiosidade e passaria a ocupar um lugar central em sua trajetória?

Foi bem pequenino, após um trágico acidente onde perdi a perna. Minha querida mãe me pôs estudar piano, tentei 6 anos, não queria magoá-la mais ainda. Mas fui um fracasso na música, como gostava de desenhar, um tio querido me desenhava sítios, cavalos e vacas eu aprendia com ele.

Como foi o início do seu caminho nas artes: houve incentivo, formação formal ou foi um processo mais intuitivo e autodidata?

Meus pais eram professores, pedagogos, em Lençois Paulista, tinham muitos livros, eu lia desde que aprendi a ler. Quando parei o piano, com 12 ou 13 anos, comecei pintura a óleo com a saudosa Professora Elenice
Lorenzetti, do ginásio, fui até o colegial. E comecei desenho com o também saudoso Professor Armando Percin, que inclusive foi Prefeito de Piratininga, uma cabeça! Nesta época ensaiei contos, imitando Monteiro Lobato que eu lia bastante. E poesias, ia a noite na casa do Professor Adolfo Ranzani estudar métrica parnasiana. Cruzava Lençóis com minha bicicleta a qual dedico um conto em novo livro em gestação. Quando entrei na faculdade pintei pouco, fiz pinturas nas paredes da Republica “Waldick Soriano” que montamos e escrevi poesias e
desenhos, os quais resgatei em: Arqueologia de um Poema Romântico, Anos 70, J A Garbino, Texto e
ilustração, Idea Editora - ISBN: 978-85-88121-80, Bauru, 2017. Voltando para Bauru, passei um tempo no Ateliê do Cutin, fiz um curso com o Rojas, ambos muito admirados e também já se foram. Há 23 anos estou frequentando e aprendendo com o Professor Ailton Ribeiro e a Mestra Alaide Jacob.

Existe alguma lembrança, experiência ou imagem da sua infância que você reconhece hoje como semente da sua linguagem artística?

Não exatamente, tudo ao meu redor, principalmente minha casa com livros, o piano e discos, os passeios pela cidade ainda rural, boiadas passavam pelas ruas de terra, pelos sítios ao redor, meu pai adorava e os filhos o seguiam!

Quando você inicia uma nova obra, o que costuma surgir primeiro: uma imagem, uma emoção, um conceito ou um gesto?

Sempre flanando, ou seja, passeando e observando as ruas, escutando gravando na memória as estórias das pessoas no consultório e fora, as vezes fotografando paisagens e naturezas mortas, vendo formas e vestimentas das pessoas. Como disse Rui Castro, a melhor maneira de escrever um conto é flanar! Os grandes jornais, antigamente as novelas, filmes na Telona, hoje as Séries e filmes na TV, me influenciam nas artes visuais e na literatura. Gosto das aberturas das Séries e das luzes da TV. Lembrei, gosto de visitar Museus quando viajo, principalmente a serviço, estudo e congressos, sempre arranjo tempo. Na minha Exposição de 07/11/2025 a 07/01/2026 no Pinacoteca Municipal estavam vários trabalhos com a influência do pintor austríaco Egon Schiele, as quais, agora, reponho na Galeria! Flanar: andar ociosamente, sem rumo nem sentido certo; flanear, flainar,
perambular

O seu processo criativo tende a ser mais planejado ou mais aberto ao improviso e às descobertas do próprio fazer artístico?

Planejado, como pesquisador em neurociências, é um hábito, mas o improviso entra em ação durante o processo, como você sabe. Preciso sair da rigidez da ciência, distrair-me. Em “meu Caderno de Desenhos, Ensaios Figurativos” mostro alguns flashes do meu planejamento.

Há materiais, técnicas ou suportes que exercem um papel especial no seu trabalho? O que eles permitem expressar que talvez outros não permitiriam?

Sempre usei tintas, e lápis, tintas sobre papel, tela e madeira, as tintas primeiro a óleo, e agora uso mais a acrílica sobre tela. E quando trabalho no papel, em monotipias e gravuras finalizo com trabalho de digitalização. Como podem ver em: Meu Caderno de Desenhos, Ensaios Figurativos, J A Garbino, IdeaEditora, Bauru, São Paulo, 2023

Quais artistas, movimentos ou universos visuais você sente que dialogam com sua obra — seja de forma consciente ou intuitiva?

A influência de escola foi a Semana da Arte Moderna, tanto na literatura quanto nas artes visuais, nas visuais os impressionistas e o expressionismo. Na literatura, poesia de Fernando Pessoa, Drumond, Manuel Bandeira, prosa e contos de Machado de Assis e Guimarães Rosa. Em nossa música popular, desde Cartola ao Chico Buarque e Gilberto Gil, passando por outros grandes brasileiros desde a música caipira raiz, bossa nova e a jovem guarda. Tenho um painel com o nome: Mágoa de Boiadeiro 90X110 cm, Acrílica sobre tela, 2012.

Em que momentos você sente que uma obra está realmente finalizada? Existe um critério claro ou é mais uma sensação interna?

Tenho critérios de encadeamento das ideias e da técnica quando estão aceitáveis. Não sou perfeccionista, perfeição é bobagem de compulsivos. Pinto como escrevo, conto coisas.

O que costuma despertar ou alimentar sua inspiração no cotidiano — livros, música, natureza, cidades, pessoas?

Principalmente o que vejo flanando por aí: entre as quatro paredes de um consultório, a beira do leito e viajando pelas ruas, estradas, rodoviárias e aeroportos. Mas coisas que tenham repercussão no que penso e tento entender da vida.

Se alguém observasse seu trabalho pela primeira vez, o que você gostaria que essa pessoa sentisse ou percebesse ao se aproximar da obra?

Que gostasse, curtisse e lembrasse algum tempo.

Ao olhar para sua trajetória até aqui, quais mudanças você percebe no seu modo de criar ou pensar a arte?

Acho que estou abordando temas mais universais, antes eram maisregionais

Que tipo de perguntas ou reflexões você espera provocar no público que entra em contato com seu trabalho?

Só espero um olhar calmo quanto à estética e suas repercussões no pensamento de quem olha, e que aproveite a experiência

 

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