Ailton Ribeiro é um artista que decidiu parar de pensar em arte. Não por desinteresse — mas porque foi exatamente esse desprendimento que o libertou para desenhar e pintar com mais verdade. Formado em Artes Visuais pela Unesp e radicado em Bauru (SP), cidade que chegou a habitar quase por acaso, ele construiu uma trajetória marcada por esse tipo de paradoxo: quanto menos tenta controlar, mais encontra; quanto mais silencia o mundo ao redor, mais sua obra fala.
Foi em Bauru que fundou a Casa Amarela, seu ateliê e marco de uma virada pessoal — o momento em que o artista deixou de ser algo paralelo à vida e passou a ser o centro dela. Com o carvão vegetal e o papel como primeiros interlocutores, Ailton desenvolve uma prática que recusa regras fixas de processo: às vezes parte de um conceito, às vezes provoca a tela até que ela mesma lhe ofereça um caminho. Planeja e improvisa. Sente e interpreta. E aprende, continuamente, a ouvir o que o próprio trabalho lhe diz.
O que une tudo isso é uma busca pelo indizível — aquilo que só o desenho e a pintura conseguem expressar. Nas lacunas que deixa em suas obras, Ailton reserva espaço para o olhar de quem chega. Esta entrevista é um convite para entender como alguém que desistiu de controlar a arte se tornou, justamente por isso, um artista cada vez mais inteiro.
Conheça mais sobre o artista e seu processo na entrevista completa que a Galeria Domi realizou com ele — e descubra, nas próprias palavras de Ailton, como alguém aprende a ouvir o que o trabalho lhe diz.
Em que momento da sua vida você percebeu que a arte deixaria de ser apenas interesse ou curiosidade e passaria a ocupar um lugar central em sua trajetória?
O primeiro momento em que comecei a ter essa noção foi quando eu era ainda criança e estudava numa escola estadual em Ourinhos (SP). Aluno da 6a série do fundamental (na época, o 1o grau), eu tive uma professora de Arte, a D. Tioko, que conversou comigo após o término de uma aula. Arte era a última “matéria” daquela tarde, e tivemos um tempinho para conversarmos, antes de eu ir para casa. Nessa ocasião, ela me fez compreender que eu tinha uma habilidade que poucas pessoas a tinham. Até ali, de fato eu não entendia como os demais alunos não conseguiam fazer algo que parecia ser tão simples. As palavras dela foram tão carinhosas e precisas que eu nunca as esqueci! Lembro que ela falava: “procure fazer com mais atenção, carinho, mais capricho”. Também dizia para que eu lavasse “bem as mãozinhas após o futebol, antes de desenhar”, entre outros bons conselhos. E concluía, dizendo que, um dia, eu poderia viver daquilo que eu conseguia fazer tão bem. A partir de então, não foi difícil cultivar o desejo de ser um artista. E foi justamente nessa época que eu mesmo construí meu primeiro cavalete de pintura, utilizando sobras de madeira e algumas ferramentas do meu pai.
Como foi o início do seu caminho nas artes: houve incentivo, formação formal ou foi um processo mais intuitivo e autodidata?
Eu sempre recebi incentivo da família, amigos, além é claro, de professores, como a própria D. Tioko, como mencionei. Conforme fui crescendo e percebendo as necessidades que a vida me impunha, mesmo desenvolvendo outras atividades como trabalho, nunca deixei a arte de lado e sempre dei um jeito de desenhar ou pintar, ainda que de modo paralelo. E fui buscando também atividades correlatas, que de algum modo me possibilitasse trabalhar com desenho e pintura. Foi assim, por cerca de 15 anos que atuei na área de comunicação visual, com pintura de letras, de desenhos, confeccionando placas, painéis e sistemas de sinalização. Antes disso, trabalhei um tempo pintando cortinas para uma grande rede de lojas de decoração. Eram desenhos todos feitos à mão sobre cortinas do tipo painel. Esse trabalho, inclusive, foi o que me trouxe para a cidade de Bauru. De certo modo, tudo o que eu fazia apontava para a direção que tomei, até que decidi voltar aos estudos e ingressar na Unesp, onde me formei em Artes Visuais (na época, Educação Artística). Formado, iniciei um período como professor na educação básica, no ensino superior e na Educação de Jovens e Adultos. Ao mesmo tempo, tratei de investir cada vez mais em pesquisas pessoais, especialmente nos campos do desenho e da pintura, que alavancaram a minha produção como artista. Fundar a Casa Amarela, inclusive, veio como uma necessidade de se obter um espaço apropriado para seguir com essa produção e minhas pesquisas - o meu próprio ateliê. Contudo, ela foi além do espaço físico, representou um marco, como um novo começo, pois foi ali que o artista passou a ocupar, de fato, um lugar central na minha vida.
Existe alguma lembrança, experiência ou imagem da sua infância que você reconhece hoje como semente da sua linguagem artística?
Sim, e é a primeira lembrança que tenho sobre isso: é a de ver um tio meu, irmão mais novo do meu pai, desenhando. Eu tinha uns três ou quatro aninhos e ele adolescente, com cerca de quatorze anos. Eu achava simplesmente mágicos aqueles traços, feitos ora com caneta esferográfica, ora com lápis, se transformarem em desenhos de aviões, ônibus e helicópteros, temas que ele explorava com maior frequência. Lembro-me de como me encantava ver os efeitos de perspectiva que ele conseguia fazer nos desenhos dele. Eu achava tão incrível que eu sempre pedia papel e lápis e ficava imitando esses efeitos, tentando fazer igualzinho a ele. Desde então, para além do desenho, eu passei a perceber perspectiva em tudo a minha volta. Passei a ver e a compreender esse fenômeno no mundo real.
Quando você inicia uma nova obra, o que costuma surgir primeiro: uma imagem, uma emoção, um conceito ou um gesto?
Geralmente, um conceito ligado a aspectos não figurativos da imagem. Por essa razão, nem sempre inicio uma pintura partindo de uma figura. Às vezes, isso acontece, mas há inúmeras formas de eu conceber um trabalho. De um modo ou de outro, a partir de um conceito, encontro a emoção que normalmente me ajuda a compreender o caminho a ser percorrido. Falando assim, parece até muito objetivo. O que quero dizer é que, para mim, deve existir algo que me motiva (e que podem ser inúmeras coisas). A partir daí, surge o desejo de expressar o que está me motivando, ou seja, a subjetividade começa a dar sinais em meio ao processo e eu devo seguir sentindo, percebendo, pressentindo-a para criar, porque a emoção vem exatamente daí, dessa subjetividade. O que vem depois é interpretação.
O seu processo criativo tende a ser mais planejado ou mais aberto ao improviso e às descobertas do próprio fazer artístico?
Eu procuro evitar seguir uma regra no que diz respeito à ordem de um determinado processo criativo. Se, por exemplo, eu não tenho algo que me sirva como ponto de partida (o que às vezes ocorre), provoco algumas situações na tela para sair daquele “branco”, com tinta, com traços, manchas, até que eu encontre nela mesma uma motivação. Nesse caso, uma figura que venha a ser inserida terá menos importância, porque a pintura, enquanto ideia, já foi concebida ali, nas situações que eu provoquei. É para essa “pintura” que se volta a minha atenção, continuamente, e é ela que passa a ser desenvolvida até a sua conclusão. O processo criativo do fazer artístico, para mim, representa uma jornada maravilhosa, plena de oportunidades. É uma grande aventura, que para vivê-la é necessário estar aberto para o novo, para o imprevisto, para a descoberta. Mas eu preciso também do equilíbrio para ser coerente comigo mesmo, com a maneira como eu penso e sinto o mundo, a vida. Eu preciso me sentir naquilo que faço.
Há materiais, técnicas ou suportes que exercem um papel especial no seu trabalho? O que eles permitem expressar que talvez outros não permitiriam?
São vários os materiais e suportes que são especiais para o meu trabalho. Mas, até aqui, ainda são mais decisivos na minha produção o velho papel para desenho e o carvão vegetal, pela fluidez com que acompanham o meu pensamento criativo. Isso acontece durante os estudos, enquanto algumas ideias vão surgindo; e no planejamento dessas ideias quanto à composição, a alguns elementos que pedem estudos paralelos e, além disso, como este instrumento, o carvão, se comporta na tela como coparticipante da pintura. Esses materiais, desde o início, impulsionam tanto o desenho, quanto dinamizam e impulsionam também a pintura, pois apesar de ser um instrumento de desenho, o carvão vegetal, pelas características pictóricas dos seus traçados, se alinha perfeitamente à minha maneira de conduzir a pintura.
Quais artistas, movimentos ou universos visuais você sente que dialogam com sua obra — seja de forma consciente ou intuitiva?
Eu tento sempre explorar o “eu mesmo” naquilo que faço. Eu entendo que, ter como referência algum movimento artístico ou um grande artista da história pode proporcionar maior segurança, por ser algo em que se apoiar. Mas esse meu empenho em esquecer essas influências enquanto estou produzindo é o que me permite correr o risco de encarar algo novo, de descobrir algo original, o “eu” em mim mesmo, sem grandes influências. Não que seja algo fácil de se conseguir. Pelo contrário! Eu acho super importante para a formação do artista estudar a história da arte, ter noção do que já se produziu ao longo dos tempos, dos diferentes estilos, diferentes escolas e movimentos. Só que ao mesmo tempo em que esse estudo nos localiza nessa mesma linha da história, nos alimenta e nos ensina, acaba também nos influenciando, inevitavelmente. Eu mesmo tenho grande admiração por vários artistas de diferentes épocas: Rembrandt e Rubens, do período Barroco, e o Giambattista Tiepolo, já no Rococó; o próprio Delacroix, do Romantismo; Monet, Renoir e Berthe Morisot, do Impressionismo; Van Gogh e Gauguin, do Pós- Impressionismo. Para citar alguns, além de outros do Expressionismo e do Fauvismo.
Em que momentos você sente que uma obra está realmente finalizada? Existe um critério claro ou é mais uma sensação interna?
É mais uma sensação interna, e que não parte unicamente de mim. Vem como reação, ou reposta, ao que o meu trabalho está me dizendo a certa altura do processo. Antes, eu costumava decidir sozinho sobre esse momento, seguindo alguns critérios para validar tal decisão. Como quem já tivesse totais condições de determinar, previamente, o que há de ser um desenho ou uma pintura. Existe uma etapa no processo de criação denominada “interpretação” que passou a fazer muito sentido na minha produção. É nesse contexto que encontro condições de explorar aspectos subjetivos relevantes. Estes são essenciais para conferir a um trabalho elementos indizíveis que são fundamentais para que espaços sejam criados e mantidos, onde poemas possam ser melhor acomodados. A partir daí, critérios um tanto lógicos saem de cena para dar espaço aos sentidos, às sensações. Eu aprendi com o tempo a ouvir o que o meu trabalho me diz enquanto o produzo. Todo traço quer ser alguma coisa. Toda cor quer ser alguma coisa. Toda mancha quer ser alguma coisa. Procuro estar atento para quando o próprio trabalho alcançar esse momento de estar concluído.
O que costuma despertar ou alimentar sua inspiração no cotidiano — livros, música, natureza, cidades, pessoas?
Enquanto artista visual, eu sou muito visual na interação com o mundo que me cerca, com a vida, e acabo vendo potencial em tudo, por meio desse sentido. A música me ajuda principalmente a isolar parte do mundo que se encontra em dissonância com o que consigo perceber. A velocidade do mundo atual, esse ritmo, o barulho... O mundo que vejo é mais silencioso, minha pintura é silenciosa, meu desenho é silencioso. Se estou no campo, na natureza, não sinto falta de música! Eu a uso para me ajudar, quando preciso, a isolar a parte do mundo que ofusca a minha percepção sobre ele, aquilo que me atrapalha, e assim consigo criar e produzir.
Se alguém observasse seu trabalho pela primeira vez, o que você gostaria que essa pessoa sentisse ou percebesse ao se aproximar da obra?
Diria para apenas ver e, se possível, sentir. Ali, pode haver algo que só consigo expressar por meio do que eu faço. Aquilo que eu não consigo dizer é o melhor que eu posso alcançar desenhando ou pintando.
Ao olhar para sua trajetória até aqui, quais mudanças você percebe no seu modo de criar ou pensar a arte?
No decorrer dos anos, a arte passou a ser algo bem simples para mim. Ao mesmo tempo em que deixa de ser complexa, curiosamente, deixa de ser uma preocupação enquanto estou produzindo ou estou por iniciar um novo projeto. Ao longo dos anos, entendi que não tenho total controle sobre ela, a arte, uma vez que esse fenômeno, para existir, não depende unicamente de mim, só porque sou considerado um artista. O que quero dizer é que se eu faço um desenho e, por exemplo, este fica guardado numa gaveta, sem que ninguém mais o veja, ele é apenas um desenho, nada mais do que isso. E a partir do momento em que este passa a ser visto, é sobre ele que deixo de ter controle, sobre o modo como será lido a partir dali. Com o tempo, portanto, deixei de me preocupar com arte e passei a me preocupar com desenho, pintura, modelagem. Isso tornou as coisas mais leves, me deixou mais livre para criar, para pintar, desenhar, do modo como eu sinto que deve ser naquele momento. Isso provocou grandes mudanças nos resultados, me ajudou a avançar. Minha única preocupação hoje é a de fazer um bom desenho, uma boa pintura, nada mais.
Que tipo de perguntas ou reflexões você espera provocar no público que entra em contato com seu trabalho?
Geralmente, desenvolvo um trabalho em torno de um conceito que não necessariamente tem relação com o tema tratado figurativamente. É claro que meu trabalho envolve elementos figurativos. E é verdade que as figuras que ali represento contribuem para a definição desse conceito. Mas isso tudo vai para o campo visual, e de modo muito mais amplo e vasto dentro da composição. Isso determina o ritmo, a escolha e o os ajustes da cor, o tratamento das formas e outros tantos elementos. Nada disso se fecha ao final, como algo tangível, concreto ou objetivo. Nas fendas do texto visual, eu procuro deixar espaços para possíveis perguntas, mas nem sei ao certo quais e não tenho controle sobre isso a posteriori, pois elas nascem a partir do que eu chamo de indizível. Eu trato apenas de manter esses espaços, esses vazios, o incompleto, uma porção de coisa nenhuma, para serem ocupados de inúmeras formas, a depender de quem olha para o meu desenho.
Confira o trabalho do artista visitando AQUI.