Há artistas que falam sobre o que fazem. E há artistas que revelam, ao falar, quem são. Dionísio Jacob pertence claramente ao segundo grupo. Paulistano, formado em Artes Plásticas, herdeiro de uma família marcada pelo teatro, pelo cinema e pela literatura, ele carrega na obra e nas palavras uma rara combinação: rigor intelectual e sensibilidade poética — sem que um sufoque o outro.
Sua trajetória atravessa décadas de criação intensa, do teatro experimental dos anos 1970 ao desenvolvimento de um universo figurativo singular, com cromatismo forte e uma voz que transita com igual liberdade pelas artes visuais e pela escrita. Mas o que mais chama atenção em Dionísio não é a extensão do percurso, e sim a qualidade da presença com que ele habita cada obra — sempre como se estivesse criando pela primeira vez.
Nesta entrevista, ele fala sobre o impulso que nunca cessa, sobre o que a arte revela de quem a faz, e sobre o tipo de diálogo silencioso que uma obra pode estabelecer com quem a encontra. Uma conversa para ler com atenção — e, quem sabe, com alguma inquietação.
Antes de qualquer definição como artista, quem é você em essência?
Difícil separar, pois a questão de ter uma vivência em atividades de criação como pintar, desenhar e escrever faz parte de mim desde a adolescência, formata minha visão das coisas e mesmo aquilo que podemos chamar de persona social. Enfim, de qualquer modo sou um cidadão paulistano, brasileiro, casado, que olha com espanto e atenção tanto para os avanços da inteligência artificial, como para os rumos do nosso país. Sou por natureza um democrata com antipatia para qualquer forma de autocracia, seja de direita ou de esquerda. E muito conectado com minha vida familiar, minha esposa Tatiana, minha filha Beatriz.
Em que momento da vida a criação deixou de ser apenas impulso e passou a se tornar linguagem?
Como disse a atividade artística esteve sempre presente na minha vida, pois venho de uma família de artistas, atores, pessoas ligadas ao teatro, cinema e televisão. Sempre cercado de muitos livros e de pessoas ligadas a arte. Além da faculdade de Artes Plásticas, fiz parte, nos anos 1970, de um grupo chamado Pod Minoga, dirigido por Naum Alves de Souza, em que participávamos de todos os processos de criação de um espetáculo, como cenários, figurinos, trabalhando como atores e autores dos textos. Além disso fazíamos exposições de arte no nosso Studio, uma velha funilaria repaginada na Oscar Freire. Isso deixou uma marca no meu trabalho pessoal que dura até hoje. Essa vivência está relatada no livro Pod Minoga, a arte de pisar no palco sem pedir licença, série de depoimentos organizados pelo Carlos Moreno e pela Sonia Fontanezzi, publicado pela editora do SESC. Com o tempo essa vivência toda começou a tomar forma na criação de um universo figurativo próprio, com um forte cromatismo e um senso poético particular expresso tanto nas artes visuais, como nas narrativas literárias.
O que, hoje, move você a continuar criando?
Creio que o impulso para criar faz parte de todas as pessoas que possuem uma natureza artística, natureza que não tenho a menor pretensão de definir aqui, mas que existe e sempre existiu. É uma das possibilidades da mente humana e esteve presente nas garatujas das cavernas paleolíticas e existirá num futuro digital com contornos ainda indefinidos. E está presente mesmo em condições adversas, deixando muitas vezes, testemunhos sensíveis dessas condições. De modo que não consigo imaginar o que poderia me fazer deixar de criar, uma vez que este é um impulso interno que se adapta a diversas condições.
Sua obra nasce mais do silêncio, da inquietação ou do encontro com o mundo?
São sugestões interessantes e que, de fato, podem provocar respostas estéticas estimulantes, variando de acordo com cada um. No meu caso particular, creio que a inquietação, ou um estado de atenção interna está sempre presente na geração de imagens. Na busca por formas não estereotipadas de expressão ou que nascem com certa vivacidade expressiva. Claro que o silêncio está presente, pois não são trabalhos coletivos. Já o encontro com o mundo vejo mais nas respostas que os trabalhos podem provocar em outras pessoas.
O que você busca compreender — ou talvez elaborar — através da sua arte?
Embora a elaboração de temas faça parte dos meus trabalhos, principalmente dos Gravados Digitais, que são profundamente temáticos, não tenho uma busca premeditada, como um pensador que quer entender um assunto através de um desenvolvimento lógico do raciocínio. Tanto a figuração, como as soluções cromáticas que surgem no meu trabalho, vem de uma busca de natureza mais poética, cuja significação nem sempre são cirúrgicas, mesmo para mim. Mas o impacto que podem provocar na sensibilidade é que mostram sua natureza real e sua verdade interna.
Existe algo que se repete no seu trabalho como uma espécie de assinatura inconsciente?
Sim. Existem temas reincidentes tanto na figuração, como nas soluções visuais, nas composições e nas cores, embora nunca seja uma repetição mecânica e sempre traga algo que outras imagens ainda não haviam esgotado como possibilidade estética.
Como você reconhece que uma obra chegou ao seu ponto de verdade?
Está aí uma questão difícil. Já houve casos em que terminei um trabalho, considerando resolvidas todas as questões que ele me propunha. E algum tempo depois, olhando o trabalho atentamente, resolvi elaborar alguma coisa mais, em geral na formulação cromática. Talvez isso se deu em função de algum amadurecimento pessoal, dentro de uma obra que ainda estava em andamento. Mas no geral, creio que há um sentido interno de elaboração formal em quem produz um trabalho artístico que sinaliza que aquela determinada expressão alcançou sua melhor formulação.
O que acontece dentro de você durante o processo criativo?
Principalmente atenção. Um estado de absorção completa na construção de um desenho ou uma pintura e mesmo um texto. É como se você estivesse buscando a melhor forma expressiva e que ela fosse construída não como se estivesse pronta de antemão, completa na mente e apenas realizada mecanicamente. Mesmo quando um artista já tenha seus elementos formais bastante cristalizados, creio que a elaboração de um trabalho sempre exige algo que é conquistado como se estivesse criando pela primeira vez, com toda entrega para aquela obra.
Há algo que você evita dizer diretamente, mas que inevitavelmente aparece na sua obra?
Como disse meus trabalhos surgem de figuras imaginárias, algumas de inspiração em mitos, ou com formas tiradas do desenho infantil refletindo um caráter mais universal. Não possuo uma proposta casuística, algo pessoal que queira comunicar, uma mensagem pessoal, por assim dizer. Claro que mesmo assim algo mais íntimo sempre pode se comunicar mesmo que não tenha sida uma intenção inicial.
Que tipo de diálogo você deseja estabelecer com quem entra em contato com o seu trabalho?
Uma troca de sensibilidade. Que é o que o trabalho de arte deseja de quem o frui. Que a obra possa tocar a sensibilidade estética de uma outra pessoa é o que desejam todos os que trabalham com criação.
Sua arte revela mais sobre quem você é ou sobre o que você observa no mundo?
Creio que ambos. Como foi observado anteriormente, um trabalho sempre revela alguma coisa do seu autor e, consequentemente, da sua visão das coisas. Mesmo que essa obra não seja uma observação direta, jornalística, da realidade, ela sempre mostra um determinado posicionamento, um estar no mundo. Mas essa revelação sobre quem eu seria ou o que meu trabalho, ou de outro artista, revela, não é a mesma coisa para cada espectador. Depende da vivência desse espectador, da realidade dele, da sua bagagem cultural e existencial. E isso é muito rico, pois torna toda fruição de uma obra por um espectador uma vivência única e intransferível.
Se sua obra pudesse deixar uma única impressão duradoura em alguém, qual você gostaria que fosse?
Como qualquer artista, gostaria de proporcionar além de um prazer estético, uma conexão íntima entre o universo do meu trabalho e o universo pessoal da pessoa que o admira. Essa conexão entre uma obra e o espectador, quando acontece, é um dos momentos de diálogo íntimo das mais ricas que a experiência humana pode proporcionar.
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