Shirley Verônica: "Acho que minha produção parte inconscientemente do "isolamento físico" e da intensa espiritualidade."

Há lugares aos quais chegamos por escolha. Outros parecem permanecer dentro de nós, esperando o momento certo para serem reencontrados. Para Shirley Verônica, a arte parece pertencer a essa segunda categoria. Desde a infância, quando o desenho a fazia esquecer das horas e entrar em um universo só seu, a criação permaneceu como uma presença silenciosa — mesmo quando a vida a conduziu por outros caminhos.

Formada em Arquitetura e Urbanismo, Shirley encontrou mais tarde na pintura não apenas uma forma de expressão, mas um território de pertencimento. Em meio às experiências e provações da vida, a arte ganhou outra dimensão: tornou-se alento, linguagem e, talvez, uma maneira de elaborar aquilo que nem sempre encontra palavras.

Hoje, sua pesquisa transita pelo campo da arte contemporânea, atravessada por questões que vão do isolamento à espiritualidade, da memória à busca por uma linguagem própria. Uma trajetória marcada menos pela linearidade do que pela permanência de algo essencial: aquela menina que desenhava continua, de algum modo, presente na artista que ela se tornou.

É sobre esse percurso — entre o que permanece, o que se transforma e aquilo que ainda está por ser descoberto — que conversamos com a artista Shirley Verônica nesta edição da DOMI.

 

O desenho chegou à sua vida ainda na infância, de maneira espontânea. O que você se lembra de sentir quando criava naquela época — e o que desse sentimento ainda permanece na sua relação com a arte hoje?

Quando eu era criança desenhava personagens de desenhos em quadrinhos. Esquecia das horas, ficava em um mundinho só meu. O mesmo acontece hoje quando quero refugiar-me do mundo.

 

Antes de existir uma intenção artística, existe um olhar. O que costuma despertar o seu olhar hoje? O que faz você parar diante de uma imagem, uma cena, uma forma ou uma paisagem?

Geralmente o que me faz parar diante de uma imagem é o que remete a minha pesquisa poética. Às vezes é só uma parte do todo que surge uma ideia, então junto outros elementos para formar a composição criativa.

 

Você já teve outros caminhos profissionais, mas a arte permaneceu como um ponto de retorno. O que existe nesse lugar para o qual você sempre acaba voltando?

Nesse lugar de retorno existe a criação que é vital para o artista.

 

Em que momento você percebeu que a arte não era mais apenas uma paixão, mas poderia se tornar uma linguagem própria?

No momento em que passei por um período de provação na vida envolvendo minha família. Então a pintura foi um alento para as minhas dores. Dessa forma fui encontrando linguagem própria.

 

O que você procura quando começa uma pintura: construir uma imagem, investigar uma ideia ou descobrir algo que ainda não sabe que existe?

Quando começo a pintar já estou com uma ideia em mente e transformo em imagem.

 

Existe uma distância entre aquilo que você imagina antes de começar uma obra e aquilo que finalmente aparece na tela? O que costuma acontecer nesse percurso?

No percurso vão surgindo os ajustes de cores e da própria imagem até a finalização.

 

O que significa, para você, encontrar um lugar de pertencimento dentro da arte contemporânea?

Significa alcançar reconhecimento artístico.

 

Há alguma experiência, memória ou sensação que esteja presente em sua produção mesmo quando você não parte conscientemente dela?

Acho que minha produção parte inconscientemente do "isolamento físico" e da intensa espiritualidade.

 

Você buscou conhecer também o mercado de arte. Como essa aproximação modificou — ou não — sua maneira de compreender o próprio trabalho e o lugar do artista?

Ajudou bastante participar de um curso sobre esse tema para conhecer o sistema da arte e a inserção do artista no meio. E direcionou minha produção para este contexto.

 

A seleção para uma residência artística representa um marco importante em sua trajetória. O que você espera descobrir sobre sua própria produção quando se coloca diante de um contexto novo?

A Residência foi um desafio para eu saber se estava no direcionamento certo, a validação do meu fazer artístico, pois circulavam agentes e curadores pela mesma.

 

Se você pudesse conversar hoje com aquela menina que desenhava espontaneamente na infância, o que acha que ela reconheceria na artista que você se tornou?

Determinação, pois mesmo trabalhando em outros setores sem ser da arte, a essência daquela menina artista sempre esteve dentro de mim.

 

E para terminar com a nossa pergunta “Entrelinhas”: se a sua obra pudesse revelar uma única coisa sobre você que as palavras ainda não conseguem dizer, o que você gostaria que ela revelasse?

Uma pessoa resiliente e espiritualizada.

 

 

Para conhecer mais o trabalho da artista, visite AQUI.