Há quem atravesse a cidade apenas para chegar a algum lugar. E há quem aprenda a lê-la. Seus muros, ruídos, inscrições, deslocamentos, encontros e pequenas tensões cotidianas tornam-se uma espécie de linguagem — um texto permanentemente reescrito por aqueles que a habitam. Luca LK pertence a esse segundo grupo.
Artista e educador, sua trajetória nasceu do encontro com a cultura urbana e se desenvolveu em uma relação contínua com o espaço público. Em sua produção, a cidade não aparece simplesmente como cenário: ela participa da obra. Superfícies marcadas pelo uso, materiais que carregam vestígios de outras histórias e gestos que se encontram com aqueles de quem passou antes fazem da criação um território onde autoria e experiência coletiva inevitavelmente se cruzam.
Talvez por isso seja difícil pensar o trabalho de Luca sem pensar também no outro. Há sempre alguém do outro lado do muro, da rua, da sala de aula ou da obra. E há, sobretudo, uma disposição para observar aquilo que a pressa cotidiana costuma tornar invisível — porque uma cidade pode revelar muito sobre quem a habita, mas também sobre quem se dispõe verdadeiramente a enxergá-la.
Convidamos Luca Caltran — Luca LK para uma conversa sobre arte, cidade e os muitos atravessamentos que acontecem entre uma e outra. Afinal, quando um artista deixa sua marca no espaço urbano, talvez a pergunta mais interessante não seja apenas o que ele deixou na cidade — mas o que a cidade deixou nele.
O que a cidade de São Paulo ensinou você a enxergar que talvez não tivesse aprendido em nenhum outro lugar?
Ela me ensinou a enxergar a pixação e o graffiti. A partir daí, tudo mudou. E é ensinar mesmo, eu ia observando as escritas e ia me questionando o porquê daquilo estar tão escancarado na cidade. A cidade de São Paulo é provocadora em vários sentidos e o graffiti e o pixo são uma dessas provocações que te colocam para refletir.
Quando você olha para uma cidade, o que vê primeiro: suas formas, suas pessoas, seus conflitos ou as histórias que parecem escondidas em cada lugar?
O que mais me chama atenção na cidade são as pessoas. Eu gosto de ficar imaginando quais são as vivências, as experiências cotidianas.
A cidade é construída por pessoas, não faria sentido ter uma cidade vazia. Então quando eu saio na rua, eu observo como as pessoas andam, como se vestem, observo as expressões faciais. eu acredito que as pessoas constroem a história de uma cidade.
O grafite nasceu para você como uma forma de expressão. Em algum momento ele se transformou também em uma forma de pensar e compreender o mundo?
Eu acho que na verdade foi ao contrário. Quando entrei em contato com a cultura Hip Hop, vi que ela poderia me mostrar uma forma de compreender o mundo muito diferente de tudo que eu já tinha visto em qualquer livro ou na escola. Quando eu comecei a pesquisar mais sobre Hip Hop, um mundo novo se abriu e aí que entra o graffiti. Então para mim, primeiro foi uma forma de ver o mundo e depois se tornou uma expressão.
Existe uma diferença entre pintar em um espaço público e pintar dentro de um ateliê? O que muda em você quando a obra encontra a cidade?
Sendo sincero, eu tenho pouca paciência para pintar no ateliê e tenho aprendido um pouco com isso também. Esse ambiente fechado, sozinho, não me atrai muito. Mas ao mesmo tempo tenho percebido que no ateliê, a minha pintura tem se desenvolvido bem. Então eu estou tentando equilibrar isso tudo. Agora, pintar na rua é o caos: carros, barulho, pessoas..e tudo isso de alguma forma me alimenta. Mas ao mesmo tempo tem momentos em que eu quero pintar na rua em locais mais calmos, sem tanta interferência. Eu acho que tanto o ateliê quanto a rua me desafiam de maneiras diferentes.
Você trabalha com superfícies que já carregam marcas de circulação e uso. O que o desgaste, a passagem do tempo e as marcas deixadas pelas pessoas acrescentam à sua obra?
Eu acredito que a arte só faz sentido se for coletiva. A presença do outro faz parte da minha arte. Então quando eu decido usar superfícies que já tem uma história, eu concretizo isso.
Muitas vezes eu não sei a história do objeto que escolhi como superfície, mas eu sei que ele tem marcas dessa história, que são interessantes para minha pintura. Eu posso evidenciá-los, ressignificá-los...Essas marcas me interessam muito.
Seu trabalho fala de encontros, conflitos e negociações no espaço urbano. O que a arte consegue revelar sobre uma cidade que seus próprios habitantes muitas vezes já não percebem?
Vivemos em um tempo em que o individualismo vem ganhando força. É o tempo das conquistas individuais: "eu chego", "eu conquisto", "eu tenho".
A arte vai na contra mão disso. Quando eu decido expor as tensões, conflitos, disputas (e não conflitos físicos apenas), eu tento mostrar que a cidade é construída pela diversidade, pelo debate. Eu quero mostrar que a cidade pode ser vivida de várias formas e não apenas pela lógica neoliberal. Cidades que são ricas em espaços coletivos, públicos, tem maior qualidade de vida porque são espaços de trocas, de olhar para o diferente, que você aprende a lidar com o outro.
Há uma tensão interessante entre deixar uma marca na cidade e, ao mesmo tempo, ser atravessado por tudo aquilo que a cidade deixa em nós. Onde você se coloca nessa relação?
Eu estou no meio. Você se dispor a sair de casa para deixar uma marca é também se permitir a ter atravessamentos. Ninguém volta ileso nessa ação.
E os atravessamentos muitas vezes acontecem no próprio ato de marcar a cidade. Seja uma pessoa elogiando ou criticando, uma buzina, a polícia que para. Tudo isso interfere no ato de marcar e não tem como você se blindar desses atravessamentos, nem faria sentido.
Ao longo de sua trajetória, você esteve muitas vezes entre dois lugares: o de artista e o de educador. O que essas duas experiências transformaram uma na outra?
Eu acho que cada vez mais está difícil separar esses dois lugares. Eu sou um artista-educador. As práticas se misturam. Eu levo experiências de artista para a sala de aula e levo experiências da sala de aula para minha prática como artista. E é positivo. Durante muito tempo eu tentei separar, pensar mais nos discursos e no contexto, mas era um desafio. Quando eu percebi que o eu-artista e o eu-educador eram uma coisa só, eu só tive ganhos. Os alunos curtem ver meus trabalhos e eu pego muitas coisas que os meus alunos fazem, como referência para a minha produção.
Você já desenvolveu trabalhos em diferentes comunidades e territórios. O contato com realidades tão diversas modificou a maneira como você entende o próprio papel do artista?
Foi como eu falei: a arte é uma construção coletiva, ainda mais quando se trata de um graffiti ou mural. Se eu chegar em um território e querer impor um desenho ou um trabalho, ele não vai funcionar, vai perder o sentido. Então a escuta é importante, a troca é importante e o trabalho vai sair como resultado disso. Todo território tem uma organização, um funcionamento e eu não posso chegar e impor algo.
O grafite passou, ao longo dos anos, de uma linguagem muitas vezes marginalizada para ocupar galerias, museus e instituições. O que você acredita que se ganhou nesse percurso — e o que talvez tenha se perdido?
Eu acho que sou muito conservador nesse aspecto. Acho que o graffiti é somente aquilo que tá na rua, nos muros. Entrou em uma galeria, museu ou qualquer outra instituição, passa a ser uma pintura, que pode ter a sua origem no graffiti, mas é uma pintura. E a gente precisa tomar cuidado com isso para que a cultura não se transforme em mercadoria. O graffiti não nasce pra ser vendido, ele nasce como uma disputa de território. Quando ele entra na lógica comercial, ele acaba perdendo sentido. Claro que é importante reconhecer que a partir do graffiti, muitos artistas conseguiram construir carreiras sólidas nos diferentes campos das Artes Visuais, mas é preciso estabelecer bem essas diferenças.
Seus trabalhos parecem carregar fragmentos da cidade para dentro da obra. Quando você retira um pedaço desse território de seu contexto original e o transforma em arte, o que acontece com a história que aquele objeto carregava?
Essa história vai ser ressignificada, vai ganhar novos sentidos e interpretações e ao mesmo tempo vai dar um sentido que eu também não estava esperando na minha pintura. Então essas histórias e marcas que o objeto carrega são significativas. Elas ganham uma grande importância nas minhas produções.
E para fechar: se a cidade pudesse olhar para você como você olha para ela, o que imagina que ela diria sobre o artista Luca LK?
"É um cara legal, mas tem pintado poucos muros."
Para conhecer mais o trabalho do artista, VISITE AQUI.