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Entrevistas

Entrevista Lucy Barbosa
Entrevista Lucy Barbosa

FLORIANO MARTINS

 

Texto originalmente publicado na Agulha Revista de Cultura, em 2001.

 

Por onde começar? Como suportar as pequenas mortes do início das coisas? O olhar repousa sobre o dorso da paisagem como se a escutar os rumores da origem. Antes entendamos a paisagem como esse duplo fascinante do visível/invisível: o que toca o olhar – um homem com seu cajado de vertigens, acasalamento de ruínas, caravana de relâmpagos. Pensemos agora no olhar disparado por uma câmara fotográfica. Também aí a origem toca a si mesma, pescando fósseis, reconhecendo as estações movediças.

Um dia Salvador Dalí disse que “a fotografia nos oferece mil imagens fragmentários que dão lugar a um total conhecimento dramático”. Tal observação cabe apenas se levarmos em conta a magia que lhe havia despertado esse então novo veículo, isto em 1929. A unidade é buscada em fragmentos e acende sempre uma condição dramática, não importa se alcançada por uma exposição de fotografias, o ladear de quadros em uma galeria, poemas em um livro, canções no palco.

O drama radica no espaço de existência, na percepção dessa existência, no ramo de conflitos que lhe define. O que me interessa em um fotógrafo (músico, poeta, escultor) é justamente quando ele percebe-se como passagem, respiradouro do que há de entranhável entre realidade e sonho, dias passados e dias por viver. Esse rigor ontológico da arte é o que tem sobrevivido aos tempos.

Em minhas conversas com a fotógrafa Lucy Barbosa (São Paulo, 1956), o assunto posto à mesa tem sido sempre o da errância como afirmação do ser, a entrega como estatuto essencial para que o homem caiba em si mesmo. Sobre essa condição nômade da existência, um dia ela me disse algo fascinante:

Nada de fechadura, o ranger da chave não virá de repente fazer estremecer o cativo, nada está fechado, nada… Que este implacável horizonte, desmesurado, mas hermético, onde nos reflexos fluidos da miragem, nossos corações, carregados de uma angústia inconfessa, procurarão um sinal, qualquer coisa, mas algo como um arbusto, um pedregulho, uma sombra, alguma coisa que nos prove que avançamos no caminho, que não andamos em círculo rebocados por uma bússola enlouquecida por alguma imprevisível anomalia magnética, e que estamos nos aproximando do objetivo.

Repete-se a pergunta: por onde começar? O mundo surge, descobre-se e se refaz no assombro de viver. Somos a chave na exata medida em que a buscamos. Lucy tem uma adorável consciência dessa errância que lhe caracteriza o trabalho.

Antes de tudo sou uma viajante, retrato meus caminhos, amores e, nos últimos anos, a África é uma presença em minha vida. Quando conheci a África negra, em 1991, fiquei impactada e germinou a vontade de entender melhor nossa cultura afro-brasileira. Conheci Pierre Verger em Paris, que me indicou um caminho: Benin, e inclusive indicou várias pessoas que poderiam me ajudar nas pesquisas. Viajei então para Benin, e ali me encontrei com o olho d’água de nossas raízes africanas.

Sempre o mesmo ponto. A raiz puxando o fio, busca de uma origem que é também um recomeço e define o diálogo do homem consigo mesmo. A fotógrafa brasileira Lucy Barbosa formou-se em História da Arte em Paris. Em meio a estudos de etnologia, pesquisas envolvendo diversas culturas, a fotografia surgiu talvez como o catálogo “completo, escrupuloso e comovedor” a que se referia Dalí, um ambiente do testemunho do fragmentário das culturas. No entanto, ao mergulhar na diversidade revelou-se uma visão de mundo que unia fios de uma parte e outra, tessitura da cosmovisão que hoje lhe define uma poética.

Um diálogo nosso:

FM | Em tuas fotografias os personagens não são isentos de drama, ou seja, podem ser vistos como personagens comuns, com os quais nos identificamos, o que imprime à tua estética uma notável condição de humanismo. Em que radica essa opção por uma identificação imediata com a experiência concreta?

LB | Não houve uma opção racional. Trabalho a fotografia como um poeta trabalha um poema, de uma forma emocional. Minha especialidade é a fotografia documental. Ela me permite retratar, também, meu olhar para a vida… Meus ensaios fotográficos não foram encomendados. Partiram espontaneamente, o que me permitiu fotografar livremente. Fotografei cenas do cotidiano, o dia a dia das pessoas, hábitos, tradições, que faziam parte também do meu cotidiano, do meu próprio dia a dia… Sim, fiz questão de retratar personagens comuns, com os quais nos identificamos. Quis mostrar que paralelamente a tudo o que se mostra sobre este continente (conflitos étnicos, epidemias e miséria), existe também paz, a normalidade dos afazeres diários como ir ao mercado, cuidar da casa, educar as crianças, trabalhar… Enfim, a vida como ela é.

Esse apetite por indigestões é o que diferencia a obra de Lucy Barbosa de um mero captor de imagens. A imagem em si é uma burla, um ardil, uma ilusão de ótica. O mundo se encontra por trás da imagem. Ou dentro, se a imagem o sabe revelar.

FM | Em que sentido toda essa mescla de contatos te enriquece? Por exemplo, como somas os cultos religiosos das distintas etnias africanas com o nomadismo do Saara?

LB | Sou um mosaico de vivências e influências culturais. Brasileira, europeia e africanas. Morei em Paris (1984-1993), e já faz 10 anos que todos os anos eu passo uma parte do tempo na África. Assim sendo, eu pude, como você diz, percorrer territórios distintos na geografia humana. Allandulilah!!! Incluso o de cunho religioso, que veio agregar valores fundamentais em minha vida. Toda mescla de contatos é riquíssima, pois te apercebes das diferenças e dos diferentes valores culturais. Por exemplo, depois de ter convivido com o ceticismo europeu, na África convivo com uma profunda religiosidade nas pessoas, da proximidade que elas têm com Deus, com o divino. De como a religião e as práticas religiosas islâmicas norteiam suas vidas e referenciais. O animismo também é muito presente na África, mesmo se uma grande parte converteu-se ao Islam. Os africanos eram animistas como nossos índios eram antes de serem catolizados. A convivência destas fés (mulçumana e animista) é pacífica e respeitada, mutuamente, afinal temos um livre-arbítrio. Floriano: tuaregues, beduínos e mouros são nômades com uma linhagem espiritual mais ligada ao Oriente, são menos mestiçados em relação às culturas animistas ou pelo vodu encontrado na África Negra. Deus meu, tantas Áfricas numa África!

Lucy Barbosa percorreu, entre 1997 e 1999, uma região imensa, envolvendo países como Mauritânia, Niger, Mali, Síria e Jordânia, documentando o cotidiano de povos nômades, a exemplo dos tuaregues, mouros, beduínos e peuls woodabes. Ela mesma os situa: "herdeiros de povos ameaçados de uma raça perseguida por outras raças, formam uma única nação feita de múltiplos povos justapostos, adicionados e jamais confundidos". Talvez radique aí um ideal da liberdade, a possibilidade, por exemplo, de uma América se perceber como conjunto de etnias que vêm sendo sistematicamente destroçadas.

Há dois ensaios fotográficos que definem essa aventura do olhar (percepção de mundo) em Lucy Barbosa, intitulados sugestivamente Mulheres de Ébano e Filhos do Vento. O primeiro busca revelar a presença da mulher (“a força matriarcal de procriação e manutenção da estrutura social do cotidiano e da vida”), enquanto o segundo percorre os rastros invisíveis do que ela mesma chama de “últimos cavaleiros do deserto”. O toque – por onde começa o mundo – de câmara de Lucy alude a um portal sagrado, que dá acesso a tudo o que vemos, somos ou intuímos.

Sobre Filhos do vento, me revelou:

É uma continuação da busca de nossas raízes, desta vez moura! Fui seguindo um fio, que me levou a meus ancestrais… E o mais interessante, Floriano, é que quando me encontro em meio a este universo, berbere, mouro, árabe, tudo me soa muito familiar. É como se meu espírito estivesse voltando para casa!

A fotografia não dista nada de outra qualquer condição de abordagem do mundo. Também através dela se busca o coração das coisas. Quando indaguei a Lucy onde repousava seu olhar, quand mirava o deserto, me disse:

No infinito, no grande silêncio, nessa imensa capacidade que ele tem de te humilhar, de te remeter a si mesmo, ao essencial... O deserto é, por excelência espiritual, um imenso jardim zen, conduz à contemplação. É um espaço fora do tempo, longe da história dos homens. É um espaço interior. Não viajamos nele, mas sim peregrinamos. Nunca me senti tão perto de Deus como lá.

Não há propriamente uma mesa em que real e imaginário ponderem acerca de insondáveis caprichos. Dalí se encantava com a alucinação da técnica, mas se pode ver em muito do que nos deixou uma alucinação do ser. Alheio a si mesmo. O que torna a fotografia de Lucy Barbosa um objeto de engrandecimento da beleza e de assombro diante da existência é que consegue projetar uma visão de mundo além do próprio tempo. Poderia estar pintando ou escrevendo. Põe-se diante do vazio e indaga: por onde começar?

 

 

Fonte: Agulha Revista de Cultura / Floriano Martins

 

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Entrevista de Camille Paglia
Entrevista de Camille Paglia

A americana Camille Paglia não se esquiva de controvérsias. Professora de Humanidades e Estudos Midiáticos da University of the Arts da Filadélfia, dispara críticas ferinas a uma parcela do movimento feminista, a artistas pop como Miley Cyrus e, principalmente, às artes plásticas contemporâneas, que já não atuam mais na vanguarda da mudança cultural, segundo ela. Como se tivesse dado um passeio pela atual Bienal Internacional de Artes de São Paulo, um resumo perfeito de tudo o que ataca em seu novo livro, Imagens Cintilantes — Uma Viagem Através da Arte desde o Egito a ‘Star Wars’ (tradução de Roberto Leal Ferreira, Apicuri, 224 páginas, 49 reais), recém-lançado no Brasil, ela bate pesado em quem faz arte para chocar sem trabalhar conceitos em profundidade e sem correr risco algum – sem de fato transcender ou transgredir.
 

Na introdução do seu livro, a senhora diz que é ultrapassada a ideia de que a arte capaz de chocar o público seja importante por definição. Ainda há artistas cujo objetivo seja simplesmente provocar o choque? 

Esse problema pode não afetar países como Brasil e Itália, que sempre respeitaram a beleza como princípio da arte, moda, decoração de interiores e da vida, mas tem sido um mal terrível para as artes dos Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha. Houve um número menor de incidentes do tipo nos EUA nos últimos anos, mas isso pode ser resultado, na verdade, de um recuo generalizado do cenário artístico. Fazer arte para chocar no mundo de hoje é uma forma de moralismo puritano, que usa uma estratégia calculada e pré-fabricada para intimidar ou punir o público. A arte se tornou arrogante e elitista, além de literal.

Arte chocante de qualidade — como Saturno Devorando um Filho (criado entre 1819 e 1823), de Francisco Goya, Les Demoiselles d'Avignon (1907), de Pablo Picasso, ou A Noite (1919), de Max Beckmann — é criada em um momento em que instituições antiquadas e corruptas precisam ser atacadas e expostas. Esses artistas estavam se arriscando à condenação, rejeição, prisão e coisas piores que isso. Havia um custo pessoal e sério nesse gesto desafiador.

Mas com a arte chocante feita de 1980 em diante é diferente. Um artista que insulta valores tradicionais — como o fotógrafo americano Andres Serrano, que mergulhou um crucifixo de plástico em uma jarra com a sua urina, em Piss Christ (1987) — é recompensado com a adoração de museus, universidades, agências governamentais para o gerenciamento das artes e jornais de prestígio.

Eu detesto esse comportamento tolo e contraproducente de artistas contemporâneos que mimetizam, sem nenhum custo pessoal, as realizações da vanguarda do passado. É exatamente por isso que muitos americanos comuns desprezam a arte. Apesar de ser ateia, eu respeito as religiões e condeno fortemente as vozes no mundo da arte e das universidades (assim como no movimento gay) que adotam a pose de “arrojadas” por insultar a religião — que é uma força mais importante do que a dessas pessoas e que terá uma vida mais longa do que elas.

Na minha opinião, a última arte chocante de vanguarda foi feita na década de 1970 por Robert Mapplethorpe, com suas fotografias do submundo sadomasoquista gay de Nova York. Católico de nascimento, Mapplethorpe produziu um retrato escultural da tortura sexual ritualística com luminosidade sacra, como estátuas e pinturas do martírio de santos.

A senhora diz que a morte de Jackson Pollock, em 1956, e a consequente administração de seu espólio por sua mulher deram origem ao mercado de arte especulativo como o conhecemos hoje. Quão prejudicial para a arte contemporânea é a venda de obras em grandes leilões? Eles são uma maneira de atestar o valor das peças ou um sinal de que elas se transformaram em meros produtos? 

A arte só ganha o noticiário hoje quando uma obra é roubada de um museu ou uma pintura de um artista famoso é vendida por um preço absurdamente alto em um leilão. A arte se transformou em investimento para os super ricos, em nada diferente de diamantes ou imóveis. Essa ostentação e excesso distorceram a percepção popular da arte, que toma a aparência de um jogo narcisista e ganancioso dos poderosos para a maior parte das pessoas.

As quantias extravagantes de dinheiro que são injetadas no mercado internacional de arte também envenenam a atmosfera para jovens aspirantes a artistas. Galerias urbanas chiques nos EUA estão, por vezes, oferecendo contratos de exclusividade a artistas que ainda estudam em escolas de arte e não dominam seu ofício. A possibilidade de ficar rico rapidamente interrompe, de maneira preocupante, o processo de maturação de um artista, que deve se desenvolver em tranquilidade, longe dos holofotes.

Esta corrupção comercial também aconteceu com o rock 'n' roll, quando ele surgiu como o gênero musical principal da minha geração, nos anos 1960. O que antes era um meio barulhento e divertido de entretenimento para adolescentes, de repente se tornou uma gigantesca máquina de fazer dinheiro, e as corporações musicais de Nova York e Los Angeles correram para oferecer contratos de gravação para cada jovem músico promissor. As bandas de rock foram enviadas em longas e fatigantes turnês e forçadas a produzir álbuns rapidamente, antes que as músicas fossem totalmente aperfeiçoadas. Afastadas de amigos e namorados e viajando constantemente, muitas bandas talentosas foram destruídas pelo frenesi de turnês e do sexo fácil e da falsa adulação proveniente de shows chamativos em estádios.

A senhora tentou alcançar um público amplo com o livro Imagens Cintilantes, mirando leitores que geralmente não acompanham o mundo da arte. Foi também uma tentativa de fazer com que as pessoas, e principalmente os artistas, percebessem que a arte contemporânea está muito derivativa e repetitiva? 

Com o livro, que demorou cinco anos para ficar pronto, tento atingir o público geral, mais do que os artistas. A maioria dos livros de arte são pretensiosamente grandes e pesados, difíceis de segurar. Eu queria produzir um livro fino e conciso, que seria prazeroso de ler. Meu objetivo era que o leitor visse 3.000 anos de arte ocidental se desenrolando diante dos olhos, rapidamente e de maneira mágica. Eu mantive os meus capítulos tão curtos quanto podia, porque queria que o leitor ficasse como que intoxicado com a estimulação visual e perdido em um mundo de beleza. Faço também um apelo fervoroso para os pais para que eles mostrem a seus filhos a história da arte. É necessário um manual conveniente, acessível, que explique a arte de forma simples, lúcida. Eu tentei escrever esse livro.

Em relação aos artistas contemporâneos, eu respeito seu compromisso com a prática nobre. Há uma dose de boa arte sendo feita no mundo. No entanto, muitos dos artistas contemporâneos simplesmente repetem fórmulas – de tema, estilo e abordagem – que já se esgotaram. Gerhard Richter é provavelmente o artista mais importante e prolífico da atualidade, e eu admiro seu trabalho, mas não acredito que ele tenha atingido nem de longe o status de Mark Rothko, um grande artista de quem o estilo de Richter descende, em parte. Rothko teve uma tremenda visão espiritual que se aproximou do misticismo. Richter é muito cerebral, metódico e imparcial. Ele não tem a paixão e o êxtase de Rothko.

Infelizmente, as artes plásticas contemporâneas já não estão na vanguarda da mudança cultural. Os jovens concederam sua lealdade à tecnologia e ao design industrial, simbolizado por seus iPhones em constante evolução, com seus múltiplos aplicativos e funções. Por causa de programas de computador, como o Photoshop, gêneros tradicionais como a pintura estão em declínio e provavelmente nunca vão se recuperar. Os jovens estão derramando sua energia criativa e engenhosidade na internet e no design de videogames ou em vídeos brilhantemente inteligentes do YouTube, que se tornam virais. A comunidade artística falhou em reconhecer ameaças à sua existência. Por isso escrevi esse livro, para tentar demonstrar a complexidade e a dimensão espiritual da arte, que não pode ser totalmente emulada por iPhone.

O último capítulo de Imagens Cintilantes trata de Star Wars: Episódio III – A Vingança dos Sith (2005), dirigido por George Lucas. Por que diz que ele é o maior artista vivo? 

Durante a minha pesquisa para esse livro, procurei um exemplo forte de arte contemporânea, mas, para meu desânimo, não encontrei nenhum que fosse original e distinto o suficiente para suportar uma comparação com os grandes trabalhos citados no livro. Enquanto escrevia, ligava a TV à noite e às vezes um dos seis filmes da saga Star Wars estava sendo exibido. Eu já havia visto os três primeiros (1977-1983), mas ignorado os três seguintes (1999-2005), porque pensava na série como uma forma de entretenimento inofensiva para crianças. Por isso, fiquei completamente atordoada com os avanços sofisticados de George Lucas em animação digital, assim como em sua capacidade de articular profundamente as emoções. O clímax do último filme, A Vingança dos Sith, ocorre em um ardente, apocalíptico planeta vulcânico e é tão tempestuosamente apaixonado como uma ópera de Puccini. Há um duelo energético de sabre de luz em um rio vermelho de lava entre Anakin Skywalker e Obi-Wan Kenobi, que termina na criação macabra de Darth Vader, o mal, imperialista robótico que é uma das principais contribuições de Lucas para a mitologia do mundo. Na minha opinião, o final longo e arrebatador de A Vingança dos Sith supera praticamente tudo o que foi produzido nas artes plásticas nos últimos 30 anos.

A Bienal de Arte de São Paulo está em cartaz atualmente. Algumas peças da mostra foram criticadas por sua obviedade, particularmente aquelas que querem deixar claras as suas posições políticas. O que acha da influência da política na arte? 

Os pós-modernistas afirmam que toda arte é política, isto é, que toda arte tem uma motivação ideológica. Acho que este é um exagero ridículo, já que muitas obras importantes foram inspiradas por visões espirituais, como O Êxtase de Santa Teresa (1647-1652), de Bernini. Há certamente muitas pinturas políticas importantes, como A Morte de Marat (1793), de Jacques-Louis David. Ele mostra um incidente real, um dos líderes da Revolução Francesa morto em sua banheira depois de ser esfaqueado por uma mulher.

David conseguiu se adaptar com muita astúcia às mudanças políticas atordoantes na França, porque apenas alguns anos mais tarde ele estava produzindo magníficas pinturas de propaganda de Napoleão, que seria coroado imperador. Eu adoro os desenhos políticos, ferozmente satíricos, feitos por George Grosz dos generais incompetentes e financiadores gananciosos que levaram a Alemanha à catástrofe da Primeira Guerra Mundial. Grosz arriscou a sua vida ao atacar a situação política. Ele teve a sorte de escapar da Alemanha apenas algumas semanas antes de Hitler assumir o poder.

No entanto, é difícil produzir arte política bem sucedida. Deve haver alguma profunda transformação do material por meio da imaginação e do intelecto. Caso contrário, os resultados são muito simplórios e agressivos, pregando um sermão enfadonho para o visitante. Arte política de baixa qualidade é meramente kitsch — como cartazes nazistas do super-homem ariano ou pinturas soviéticas de camponeses felizes cumprimentando tanques do exército stalinista com flores. Se o espectador não sente uma explosão de iluminação, uma obra de arte política falhou.

O Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo, sediou recentemente exposições sobre o músico David Bowie e o cineasta Stanley Kubrick, e sobre um programa de televisão, e atraiu muitos visitantes. A senhora acha que esse tipo de exposição ajuda aqueles que não costumam acompanhar o mundo da arte a perder o "medo" de entrar em um museu? 

A exposição itinerante de figurinos de David Bowie foi criado em Londres pelo Museu Victoria & Albert, uma instituição industrial que se especializou no artesanato, não nas artes plásticas. O V&A esteve corajosamente na vanguarda ao exigir respeito para a indústria têxtil e o design de moda, em um momento em que a moda não era levada a sério por universidades ou pelo movimento feminista. Estou muito orgulhosa de ter feito parte do projeto de Bowie: o V&A me convidou para escrever um ensaio sobre o músico e sobre identidade de gênero para o catálogo da exposição, que já foi traduzido para vários idiomas, já que a mostra viaja o mundo. Bowie teve um enorme impacto sobre mim e minhas ideias quando ele surgiu no cenário internacional no início da década de 1970, quando eu ainda estava na faculdade. Quando visitei o V&A em Toronto, no ano passado, fiquei espantada com as longas filas de jovens esperando ansiosamente para entrar. Foi uma demonstração do apelo de Bowie às massas através das gerações.

Qualquer coisa que atraia jovens para museus e os apresente à experiência do museu tem que ser enxergada como positiva para as artes a longo prazo. Neste caso, porém, David Bowie não era apenas uma estrela pop, mas um pioneiro da arte performática, que tomava forma no final dos anos 1960 e início dos anos 70 e continuaria a ser um gênero dominante nos 25 anos seguintes. Além disso, as capas ousadas de grandes álbuns de Bowie, especialmente a de Aladdin Sane, se tornaram ícones mundiais instantâneos e fazem parte da história das artes visuais. Por isso, a mostra da V&A tem todo o direito de ser apresentada em um museu.

Falando sobre cultura pop, Nicki Minaj, no clipe de Anaconda, e Jennifer Lopez e Iggy Azalea, em Booty, nos fez perceber que a cultura americana está sendo "invadida" por derrières. Por que a senhora acha que isso está acontecendo? 

Enquanto eu crescia, nos Estados Unidos da década de 1950 e início dos anos 60, ninguém pensava em nádegas de mulheres, que eram comprimidas, até parecer uma mera protuberância, pelas roupas que elas usavam. Anúncios e filmes mostravam apenas seios e sutiãs. Ouvíamos falar de turistas que iam à Itália e tinham suas nádegas beliscadas na rua e não entendíamos o porquê.

Mas isso era parte da cultura branca dominante, que governava os EUA, então um país fortemente protestante. Enquanto isso, havia uma longa tradição entre os afro-americanos de glorificar o “bumbum” bem torneado, um tema que pode ser verificado em letras de artistas negros, como a de She's a Brick House, do grupo Commodores, de 1977. “Brick house” é uma gíria que indica uma mulher sexy com grandes quadris.

Mas nada mudou até que Jennifer Lopez fez um ensaio fotográfico para a revista Vanity Fair, em 1998, em que ela mostrava suas amplas nádegas, envoltas em seda branca, para a câmera. Foi a primeira vez no jornalismo americano que uma grande publicação mostrou a erotização dos bumbuns.

Depois da foto, o mundo mudou do dia para a noite. Ano após ano, as nádegas das mulheres vêm se tornando mais e mais importantes na cultura popular e na iconografia americana. A importação de novidades brasileiras, como o biquíni fio dental, a depilação com cera (chamada de "Brazilian" nos EUA) e implantes de silicone, acelerou esse processo. Estrelas da música como Beyoncé e Rihanna agora mostram seus derrières bem torneados nos palcos e fora deles, e até mesmo cantoras caucasianas como Miley Cyrus tentam entrar na onda com o "twerking" — uma dança de teor sexual em que se sacodem as nádegas, criada por afro-americanos de New Orleans.

 
Fonte: VEJA
 
 
 
 
 
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Entrevista com Calil Neto
Entrevista com Calil Neto

No lançamento de Domi galeria de Arte Online, conversamos um pouco com Calil Neto, fotógrafo profissional desde 1982, formado pela Escola Focus de Fotografia –de São Paulo, professor de fotografia, fotógrafo do INCOR - Instituto do Coração do H. C. de São Paulo por alguns anos,  especializado em fotografia ambiental, participante de diversos livros, finalista do Sony World Photography e ganhador de diversos outros prêmios, que nos contou um pouco mais sobre sua vida e sobre sua grande paixão.

 

Começo na carreira de fotógrafo


"Eu era apenas um rapaz tímido do interior sem dinheiro no bolso que adorava as fotografias publicadas em revistas e jornais e por isso pensava que todo fotógrafo era jornalista. Eu não conhecia nenhum fotógrafo para perguntar como era. No final da adolescência fui para São Paulo estudar jornalismo. Bastou um ano para eu perceber que minha faculdade ainda não existia: deixei Sampa para trás e fui para a Europa com mochila, sleeping bag e passagem só de ida... fui vender formiguinha (marionete) para os turistas na porta do Museu do Louvre. E dessa forma comprei minha primeira Câmera SLR em Andorra e na Europa (França e Espanha) tentei estudar fotografia mas não consegui porque eu era um jovem sul-americano sem dinheiro no bolso, com visto de turista vencido... Voltei para o Brasil, conheci a Focus Escola de Fotografia e timidamente fiz minha matrícula. Não era faculdade mas tinha grandes fotógrafos que eram professores e lá eu pude aprender bem os dois: a fotografia e a profissão de fotógrafo".


Maiores dificuldades no começo da carreira e como elas foram superadas 

 

"Perdi meu pai ainda criança, minha mãe professora só conseguia sustentar a casa e eu aprendi a trabalhar cedo para ter e ser o que eu queria. Na época da Focus eu trabalhava no finado Banco Nacional na compensação, contava milhões em cheques toda madrugada e recebia um salário pequeno no final do mês. Pagava moradia, escola e com o pouco que sobrava, entre comida e filme, eu comprava filmes (em lata de 30 metros, que era mais barato. Depois rebobinava em filmes de 36 poses)."

"Aprender a fotografia foi me fazendo muito bem, a mesma luz que sensibilizava meus filmes iluminava minha alma. Eu me dediquei totalmente: a escola foi se transformando na minha casa, os donos e professores em meus amigos, e eu não ia mais lá só para assistir as aulas a que estava matriculado. Comecei a frequentar as aulas dos cursos avançados de outros professores (meus amigos) e depois de pouco tempo os donos (meus amigos) deixavam a chave comigo e eu passava os fins de semana fazendo minhas ampliações no laboratório da escola e dormia no sofá do corredor da escola. Eu retribuía limpando equipamentos da escola e preparando as químicas do laboratório para as aulas", relembra Calil.

"Prosseguindo desta maneira não sei precisar o dia que passei de aluno para funcionário até chegar a professor. E assim eu também fui ser assistente e laboratorista no estúdio de 3 professores/amigos e por indicação de outro professor/amigo consegui meu primeiro emprego com carteira profissional assinada como fotógrafo no Instituto do Coração do Hospital das Clínicas. A princípio eu achei estranho fotografar cirurgias mas foi lá que aprendi bem a técnica da Macrofotografia. Quando saí do INCOR eu estava pronto para ter meu próprio estúdio e atender os clientes que já havia adquirido. Hoje sei que minha transformação em fotógrafo profissional foi proporcionada por minha paixão e dedicação à fotografia e essa paixão/dedicação proporcionou eu ter verdadeiros amigos que me ensinaram e me ajudaram a viver profissionalmente da fotografia. Esses amigos são os verdadeiros tesouros, não podemos ficar sem eles nunca".



A grande paixão 

"Gosto de todas as técnicas fotográficas, utilizar a luz para transmitir uma mensagem me fascina. Mas creio que o fato de ter crescido em ambientes de natureza ainda vigorosa e ter vivido entre pessoas trabalhadoras e de bastante fé religiosa, de testemunhar a transformaçãodeste mundo, faz a documentação fotográfica cultural e ambiental serem minha maiores paixões dentro da fotografia. Eu fico muito admirado quando vejo uma foto bastante antiga de algum lugar que me mostra como tudo mudou e fico pensando se, daqui muitas décadas, alguém irá olhar minhas fotos com a mesma admiração". 


 

Dicas...

"A matéria prima da fotografia é a luz e a luz tem infinitas formas de se mostrar: na intensidade, na tonalidade e na direção; as formas da luz é o que o fotógrafo mais precisa aprender. São infinitas e o aprendizado é infinito. No funcionamento do equipamento fotográfico, câmeras e lentes objetivas, aprender a controlar a velocidade através do obturador, a profundidade de campo através da abertura do diafragma e a sensibilidade do filme/sensor digital é fundamental. E algumas lentes objetivas grande angulares produzem muita distorção da perspectiva, é bom ter o conhecimento das possibilidades dessas distorções. A fotografia como arte dá a liberdade do fotógrafo fazer como quiser sua imagem e assim o fotógrafo pode super ou sub expor, mudar enquadramentos e regras. Mas atenção se você é profissional: satisfazer as necessidades da fotografia comercial para seu cliente é fundamental para sua sobrevivência".

 

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A Arte Contemporânea é uma farsa: Avelina Lésper
A Arte Contemporânea é uma farsa: Avelina Lésper

Com a finalidade de dar a conhecer seus argumentos sobre os porquês da arte contemporânea ser uma “arte falsa“, a crítica de arte mexicana Avelina Lésper apresentou a conferência “El Arte Contemporáneo- El dogma incuestionable” na Escuela Nacional de Artes Plásticas (ENAP), sendo ovacionada pelos estudantes na ocasião.

A arte falsa e o vazio criativo

“A carência de rigor (nas obras) permitiu que o vazio de criação, o acaso e a falta de inteligência passassem a ser os valores desta arte falsa, entrando qualquer coisa para ser exposta nos museus “

A crítica explica que os objetos e valores estéticos que se apresentam como arte são aceites em completa submissão aos princípios deuma autoridade impositora. Isto faz com que, a cada dia, formem-se sociedades menos inteligentes e aproximando-nos da barbárie.

O Ready Made

Lésper aborda também o tema do Ready Made, expressando perante esta corrente “artística” uma regressão ao mais elementar e irracional do pensamento humano, um retorno ao pensamento mágico que nega a realidade. A arte foi reduzida a uma crença fantasiosae sua presença em um mero significado. “Necesitamos de arte e não de crenças”.

Génio artístico

Da mesma maneira, a crítica afirma que a figura do “génio”, artista com obras insubstituíveis, já não tem possibilidade de manifestar-se naatualidade. “Hoje em dia, com a superpopulação de artistas, estes deixam de ser prescindíveis e qualquer obra substitui-se por outraqualquer, uma vez que cada uma delas carece de singularidade“.

O status de artista

A substituição constante de artistas dá-se pela fraca qualidade de seus trabalhos, “tudo aquilo que o artista realiza está predestinado a ser arte, excremento, objetos e fotografias pessoais, imitações, mensagens de internet, brinquedos, etc. Atualmente, fazer arte é um exercício ególatra; as performances, os vídeos, as instalações estão feitas de maneira tão óbvia que subjuga a simplicidade criativa, além de serempeças que, em sua grande maioria, apelam ao mínimo esforço e cuja acessibilidade criativa revela tratar-se de uma realidade que poderia ter sido alcançada por qualquer um“.

Neste sentido, Lésper afirma que, ao conceder o status de artista a qualquer um, todo o mérito é-lhe dissolvido e ocorre uma banalização.“Cada vez que alguém sem qualquer mérito e sem trabalho realmente excepcional expõe, a arte deprecia-se em sua presença e concepção. Quanto mais artistas existirem, piores são as obras. A quantidade não reflete a qualidade“.

 Que cada trabalho fale pelo artista

“O artista do ready made  atinge a todas as dimensões, mas as atinge com pouco profissionalismo; se faz vídeo, não alcança os padrões requeridos pelo cinema ou pela publicidade; se faz obras eletrónicas, manda-as fazer, sem ser capaz de alcançar os padrões de um técnico mediano; se envolve-se com sons, não chega à experiência proporcionada por um DJ; assume que, por tratar-se de uma obra dearte contemporânea, não tem porquê alcançar um mínimo rigor de qualidade em sua realização.

Os artistas fazem coisas extraordinárias e demonstram em cada trabalho sua condição de criadores. Nem Damien Hirst, nem Gabriel Orozco, nem Teresa Margolles, nem a já imensa e crescente lista de artistas o são de fato. E isto não o digo eu, dizem suas obras por eles“.

 Para os Estudantes

Como conselho aos estudantes, Avelina diz que deixem que suas obras falem por eles, não um curador, um sistema ou um dogma. “Suaobra dirá se são ou não artistas e, se produzem esta falsa arte, repito, não são artistas”.

O público ignorante

Lésper assegura que, nos dias que correm, a arte deixou de ser inclusiva, pelo que voltou-se contra seus próprios princípios dogmáticos e, caso não agrade ao espectador, acusa-o de “ignorante, estúpido e diz-lhe com grande arrogância que, se não agrada é por que não apercebe“.

“O espectador, para evitar ser chamado ignorante, não pode dizer aquilo que pensa, uma vez que, para esta arte, todo público que não submete-se a ela é imbecil, ignorante e nunca estará a altura da peça exposta ou do artista por trás dela.Desta maneira, o espectador deixa de presenciar obras que demonstrem inteligência”.

Finalizando

Finalmente, Lésper sinaliza que a arte contemporánea é endogámica, elitista; com vocação segregacionista, é realizada para sua própriaestrutura burocrática, favorecendo apenas às instituições e seus patrocinadores. “A obsessão pedagógica, a necesidade de explicar cada obra, cada exposição gera a sobre-produção de textos que nada mais é do que uma encenação implícita de critérios, uma negação àexperiência estética livre, uma sobre-intelectualização da obra para sobrevalorizá-la e impedir que a sua percepção seja exercida comnaturalidade“.

A criação é livre, no entanto a contemplação não é. “Estamos diante da ditadura do mais medíocre”

fonte: Vanguardia

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