Claudia Seber: "Falo do tempo, do pertencimento, de sustentabilidade, de Deus, das relações humanas na contemporaneidade e por aí vai."

Nem toda entrevista começa com perguntas.

Algumas começam muito antes, no instante em que uma obra nos obriga a interromper o olhar automático e permanecer diante dela por mais tempo do que havíamos planejado. É nesse intervalo — entre o que vemos e aquilo que lentamente começa a nos ver de volta — que nasce a conversa que você está prestes a ler.

Este mês, a DOMI Galeria teve o privilégio de encontrar a artista paulistana Claudia Seber para um diálogo que percorre caminhos pouco frequentes. Falamos de criação, matéria, silêncio, inconsciente, beleza, verdade e tempo. Mas, sobretudo, falamos sobre aquilo que escapa às definições e insiste em permanecer vivo dentro da experiência artística.

Há uma consistência rara em seu pensamento. Em vez de oferecer explicações, Claudia prefere cultivar perguntas. Em vez de separar técnica e intuição, forma e conceito, sujeito e obra, ela nos conduz por um território onde essas fronteiras parecem perder sentido.

Ler esta entrevista é, de certa maneira, visitar seu ateliê sem atravessar a porta. É acompanhar o percurso invisível que antecede cada escultura, compreender como materiais esquecidos podem tornar-se linguagem e perceber que, para alguns artistas, criar não é produzir objetos, mas estabelecer novas possibilidades de encontro entre o mundo e aquilo que nele permanece indizível.

É para esse espaço — de contemplação, pensamento e descoberta — que convidamos você agora.

 

O que existe em você que não consegue se expressar de nenhuma outra forma além da arte?

Seria redundante dizer: “Simplesmente ela em si”. Porque entraríamos numa alçada de definições pessoais e teóricas acerca da Arte que me afastariam do real sentido dela em minha vida. Me limito então em dizer: Meu inconsciente. Implacável na expressão pessoal e coletiva mais profundas quando nos debruçamos verdadeiramente a Arte.

 

Sua formação foi mais acadêmica, mais intuitiva ou uma costura entre as duas? O que cada uma te deu?

Percorremos caminhos, as vezes claros e diretos, outros nem tanto. Digamos que tenha começado pela formação acadêmica em um momento da minha vida de pouca percepção do que tinha em minhas mãos. Em todos os sentidos. Sou formada em Terapia Ocupacional e naquela época a premissa era o uso da arte como tratamento funcional e psicológico das pessoas. Pouco me realizei.

Passados alguns anos de formação ingressei no mundo da Arte através da joalheria autoral. Passados outros tantos me debrucei fortemente na Psicologia Analítica para compreender o que aquele trabalho artístico, de criação sobretudo, tinha significado em minha vida profissional e pessoal. Nesse momento e usando as palavras da sua pergunta, costurei em mim ambas as experiências que foram e ainda são, fundamentais para mim. Surgiram as esculturas inicialmente com o refugo da joalheria e posteriormente fui ampliando o uso de materiais, prioritariamente de descarte.

Se não houver o outro na Arte, na humanização, o coletiva desse significado, ela se afasta de sua essência.

Teoria e técnica são apenas instrumentos que balizam nossa intuição.

 

Existe alguma fase da sua trajetória que você olha hoje com estranheza — como se fosse obra de outra pessoa?

A ampliação dos estudos, dos recursos plásticos, materiais e o aceitação da Arte como premissa de vida fizeram com que a forma da minha expressão mudasse. O conteúdo e a essência são os mesmos. Essa é a nossa identidade profunda e sincera.

Por vezes deparo-me com o dilema do que fazer diante de um trabalho que me causa estranheza. Mas entendo isso como um processo, um crescimento e neste momento, seu destino final se torna mais leve para mim. Muitas vezes isso diz mais respeito a forma como executei-o do que o conceito.

 

O que acontece no seu corpo quando você está criando? Existe uma fisicalidade no seu processo que as palavras dificilmente capturam?

Sua pergunta me suscitou um desejo: Ver-me criando, como espectadora de mim. Nunca havia pensado nisso. No entanto, relembrando processos, posso dizer que a densidade de meu corpo se torna mais rarefeita nesses momentos. Como se fundindo ao objeto da criação que está a minha frente.

 

Você trabalha melhor no silêncio, no caos, na rotina ou na ruptura? O ambiente importa?

Definindo o trabalho como algo estruturado e executado dentro do atelier, minha concentração é tamanha que necessito do silêncio. Mas os sons que me circundam e vêm de fora não me atrapalham. Por vezes a observação simples do trabalho, simplesmente o olhar, fazem parte do meu processo e neste momento necessito estar sozinha. Neste sentido o ambiente importa.

Porém, este mesmo ambiente pode ser extremamente inspirador em outras circunstâncias. Porque o artista é aquela pessoa que talvez viva com seu lado do avesso para fora e estar no mundo, seja ele qual e como for, seja em si fonte de inspiração.

 

Existe uma tensão entre o que é belo e o que é verdadeiro na sua obra? Como você navega entre esses dois polos?

A definição clássica do belo está inserida em um determinado tempo-espaço, em proporções, em cores, em harmonia determinada, enquanto que aquilo que é verdadeiro para cada artista é perene e independe disso tudo. Se sentimos e trabalhamos com a premissa da arte enquanto expressão inconsciente de um Eu, a verdade e a beleza não se contrapõem. E a observância de cada um desses aspectos parte de um referencial diferente: a verdade parte do sujeito. O belo, do mundo que o rodeia.

No entanto, sou “rigorosa” com a forma com a qual apresento meu trabalho.

 

Quais perguntas você ainda não sabe responder sobre o seu próprio trabalho?

Por que? Para onde? Para que?

Parto do pressuposto de que o imprescindível e o insubstituível estão muito distantes.

E meu trabalho é totalmente prescindível para a humanidade, mas insubstituível. Jamais haverá algo exatamente igual. Talvez esse pensamento defina estilo e partimos para a questão seguinte.

 

Como você se relaciona com a ideia de estilo — ele é uma conquista, uma prisão ou as duas coisas?

Estilo nos identifica, nos insere coletivamente e nos baliza em determinado universo. Precisamos de referências mesmo que em determinado momento elas se tornem obsoletas. Conquista ou prisão são lados da mesma moeda e o importante é estarmos atentos e não nos acomodarmos no que supostamente nos pareça o ponto final de nossas criações.

Talvez confundamos estilo com técnica, o que me parece agora equivocado. Se tomarmos os grandes artistas, muitos deles passearem por inúmeras técnicas conservando o mesmo estilo, como por exemplo Salvador Dali.

 

O que diferencia, para você, uma obra que funciona de uma que apenas existe?

Funcionalidade e existência me remetem à questão 6 sobre o belo e o verdadeiro. Algo que se exterioriza, no exato momento em que surge no mundo, funciona no mínimo, como forma de sublimação pessoal. Os conceitos podem ser convergentes dependendo de como sejam interpretados.

 

De que forma você imagina que seu trabalho conversa com o Brasil — sua cultura, sua história, suas contradições?

Com relação a esse aspecto político e social, meu trabalho deixa a desejar. Meu ponto de partida na construção de uma escultura é o próprio material, mas na quase totalidade é uma ideia ou um conceito que eu diria universais. Falo do tempo, do pertencimento, de sustentabilidade, de Deus, das relações humanas na contemporaneidade e por aí vai. Claramente essa posição traz um diálogo interno e coletivo, mas ele não aponta necessariamente para o Brasil.

No entanto, quando da tragédia em Brumadinho, realizei uma escultura que foi exposta no extinto Espaço Cultural do Banco do Uruguai. Em determinado momento me deparei com um rapaz fitando-a atentamente. Ao me aproximar e me apresentar como a artista criadora, notei que ele tinha lágrimas nos olhos e então me agradeceu e relatou a perda de alguns amigos no ocorrido.

Não me fixo necessariamente a isso, a menos que ressoe emocionalmente dentro de mim.

 

Existe algo que você já tentou comunicar pela arte e que simplesmente não funcionou? O que aprendeu com isso?

Aparentemente não, mas minha inquietação e curiosidade pela vida, mesclada ao desejo e amor à arte, por vezes me colocam em um estado de ausência, de reserva. E somente assim consigo efetivamente contemplar e me debruçar ao que anseio comunicar. Em alguns momentos isso é tão forte que é necessário algum esforço para retornar.

 

Se sua obra fosse um lugar — não uma imagem, mas um lugar físico — como ele seria?

O vazio do Tao.

 

 

Para conhecer mais o trabalho da artista Claudia Seber, visite aqui