Algumas obras começam antes da matéria. Nascem de uma inquietação, de uma memória, de algo que atravessa o corpo e permanece ali, silenciosamente, até encontrar uma forma possível de existir. Para Evamm, artista argentina radicada no Brasil, a pintura parece nascer justamente nesse intervalo: entre aquilo que se percebe e aquilo que ainda não se consegue nomear.
Em sua produção, gesto, matéria e intuição constroem uma linguagem em que as fronteiras se tornam menos importantes. O figurativo encontra o abstrato; o corpo aproxima-se da paisagem; elementos orgânicos deixam de ser apenas matéria para carregar território, memória e presença. Há, em seu processo, uma disposição para escutar — o acaso, a natureza, a própria pintura e tudo aquilo que pode surgir quando o controle cede algum espaço à experiência. Talvez por isso suas obras pareçam pedir algo cada vez mais raro de quem as observa: tempo. Em uma época de imagens velozes e olhares breves, Evamm propõe a permanência — parar, respirar e perceber o que acontece não apenas diante da obra, mas também dentro de quem a contempla.
Esse mês, conversamos com a artista sobre pintura, ancestralidade, corpo, espiritualidade, natureza e criação. Uma conversa sobre aquilo que pode ser visto, mas sobretudo sobre o que a arte ainda é capaz de tornar sensível — mesmo quando as palavras não alcançam... Venha conferir!
Sua pintura parece nascer antes mesmo do primeiro gesto sobre a tela. Como você reconhece que uma obra já começou a existir?
Acredito que uma obra começa muito antes da matéria. Ela nasce da experiência, do cotidiano, dos pensamentos, das inquietações e daquilo que nos atravessa, mesmo quando ainda não conseguimos nomear. No meu processo, a meditação é uma forma de silenciar o excesso de informação e abrir espaço para a intuição. É nesse estado de escuta que percebo que alguma coisa começou a se formar dentro de mim.
Minha pintura nasce de uma necessidade muito íntima de tornar visível aquilo que o meu se interno precisa comunicar. Às vezes sinto que não sou exatamente quem determina a obra, mas quem cria as condições para que ela aconteça, como uma espécie de canal entre o invisível e a matéria. Existe uma frase de Hilma af Klint que atravessa profundamente minha pesquisa: para compreender o mundo, precisamos também aprender a olhar para dentro da própria alma. É nesse movimento entre interior e exterior que minha pintura começa.
Você costuma dizer que seu processo é ritual. O que esse ritual desperta em você que não seria possível alcançar apenas pela técnica?
O ritual me permite suspender, por alguns instantes, o controle que a técnica pode exercer sobre o processo. É dar a mim mesma a licença para errar, experimentar, esperar, escutar o acaso e deixar que a matéria também participe da decisão. Nesse estado, conhecimentos técnicos convivem com sensibilidade, memória ancestral, plantas, respiração, som, energia e contemplação. Não se trata de abandonar o conhecimento, mas de permitir que ele deixe de ser uma regra e se transforme em ferramenta.
Penso o ritual como uma experiência de presença: um modo de deslocar a consciência para perceber aquilo que normalmente passa despercebido. A pintura deixa então de ser apenas um objeto produzido e passa a ser uma experiência vivida. É nesse lugar que encontro o que chamo de sagrado: não necessariamente como algo religioso, mas como uma dimensão de atenção profunda, intenção e conexão.
Seu trabalho atravessa o figurativo e o abstrato com muita naturalidade. O que determina, em cada obra, a linguagem que ela irá assumir?
A pintura é o espaço onde posso dar forma aos sentimentos que me habitam. Não parto de uma escolha rígida entre figurativo e abstrato; a linguagem aparece de acordo com aquilo que a obra precisa dizer. Quando o corpo surge, geralmente aparece o corpo feminino como território de escuta, transformação e conexão com a Terra. Quando a forma se dissolve, a abstração me permite trabalhar justamente com aquilo que não possui uma imagem definida: sensação, memória, energia, movimento, silêncio.
Para mim, figurativo e abstrato não são opostos. São diferentes maneiras de acessar uma mesma investigação: aquilo que existe entre o corpo, a matéria, a natureza e o mundo interior.
O corpo feminino ocupa um lugar central em sua pesquisa. O que ele representa para você hoje, para além da figura humana?
O corpo feminino é, para mim, um portal sagrado da existência. É território de criação, transformação, memória e continuidade. Através dele, a vida prospera. Por isso, quando o corpo aparece em minha pintura, ele não é apenas uma figura humana. É também a presença de uma linhagem, de uma memória ancestral e de uma força que muitas vezes foi silenciada.
Tenho interesse nesse corpo que escuta, que sente, que se transforma e que mantém uma relação profunda com a Terra. É uma forma de trazer o pensamento matriarcal para o campo da pintura e torná-lo visível. Talvez minha frase mais direta seja: a Terra é mulher, e todos nós nascemos dela.
Você acredita que o acaso não existe e que cada marca carrega um sentido. Como essa percepção transforma sua relação com o processo criativo?
É justamente aí que entra o que chamo de lúdico-primitivo: um modo de criar em que pensamento, respiração, som, corpo, terra, matéria e acaso participam da construção da obra.
Gosto de permitir que a pintura desenvolva certa autonomia. Muitas vezes começo com uma intenção, mas a própria matéria conduz o caminho. Uma mancha chama outra, um gesto produz uma resposta, uma textura modifica a composição. E, de repente, algo aparece que eu não havia planejado.
Um exemplo muito marcante aconteceu com a obra Covid, realizada durante a quarentena de 2020. A tela estava estendida sobre o chão e eu trabalhava com gotejamento enquanto ouvia mantras e sons vibracionais. Ao deixar cair um pingo de tinta diluída a certa distância da superfície, a mancha resultante formou, diante dos meus olhos, uma imagem que remetia claramente ao vírus. Aquilo não estava planejado. Ao mesmo tempo, eu já havia construído
uma espécie de cidade abstrata na pintura. O acaso produziu uma forma que dialogava diretamente com o momento histórico que estávamos vivendo.
É daí que nasce uma das questões centrais da minha pesquisa: o destino da mancha. A mancha torna-se um registro quase primitivo de uma memória subjetiva, como se a pintura pudesse revelar algo que a consciência ainda não sabia que estava procurando.
Suas obras evocam ancestralidade, espiritualidade e território sem recorrer à ilustração desses conceitos. Como você encontra esse equilíbrio entre o visível e o invisível?
Essa relação foi construída ao longo da minha própria vida. Passei por experiências que me fizeram buscar ferramentas para retornar ao meu centro, e nesse percurso encontrei a meditação, a respiração, a contemplação, o estudo das plantas, a espiritualidade e diferentes formas de compreender nossa relação com a natureza. Grande parte dessa sensibilidade também vem da minha linhagem feminina. Aprendi a perceber que existem conhecimentos que não chegam apenas pela racionalidade, mas também pela experiência, pela escuta e pela relação com o mundo.
Ao mesmo tempo, minha pesquisa artística não se sustenta apenas na experiência subjetiva. O estudo é fundamental. Arte, filosofia, psicologia, práticas contemplativas, plantas, território e pensamento ancestral atravessam minhas investigações. Por isso, não procuro ilustrar o espiritual. Procuro criar uma experiência em que o invisível possa ser percebido através do visível. Os materiais, as cores, as texturas, as plantas e o território pertencem à dimensão concreta da obra. A memória, a intenção, o espírito e aquilo que não conseguimos nomear pertencem à dimensão invisível. Para mim, o equilíbrio acontece justamente quando essas duas dimensões deixam de estar separadas.
Ao incorporar elementos orgânicos coletados da natureza, você amplia o próprio conceito de pintura. O que essas presenças acrescentam à obra que a tinta, sozinha, não alcançaria?
Quando incorporo plantas e outros elementos, a pintura deixa de ser apenas uma superfície representada e passa a carregar uma presença material do próprio território.
As plantas possuem história, cheiro, textura, memória cultural e diferentes significados construídos ao longo das gerações. Elas carregam conhecimentos relacionados ao cuidado, à cura e à relação humana com a natureza.
A cor também possui uma dimensão sensível muito forte na minha pesquisa. Kandinsky foi uma referência importante justamente por pensar a cor para além da aparência, como algo capaz de produzir estados internos. Quando uno cor, matéria e gesto, não estou apenas acrescentando elementos à pintura. Estou criando uma espécie de campo de relações entre corpo, natureza, memória e percepção. A planta não está ali para decorar a obra. Ela participa da obra.
Além da produção artística, você dedica parte da sua trajetória à formação de outros artistas e a projetos coletivos. O que ensinar e criar em comunidade transformou na sua própria maneira de fazer arte?
Ensinar me fez compreender ainda mais profundamente que a arte não precisa ser privilégio de quem se reconhece como artista. Acredito que entrar em contato com o fazer artístico pode ser uma experiência de escuta, descoberta e transformação. É uma possibilidade de olhar para dentro, elaborar aquilo que pesa e encontrar outras formas de existir e se relacionar. Trabalhar com outras pessoas também modificou minha própria prática. Aprendi a escutar mais, a ser permeável ao outro e a compreender que uma obra pode nascer de muitas vozes.
Vivemos tempos de excesso de velocidade, informação e isolamento. Por isso, criar espaços de encontro tornou-se parte importante da minha pesquisa. Eu costumo pensar que cada pessoa oferece ao mundo aquilo que um dia precisou encontrar. Talvez seja esse o meu caso: a arte foi uma ferramenta de transformação para mim, e hoje quero ampliar o acesso a essa experiência.
Existe alguma experiência — uma viagem, um encontro, um silêncio ou um acontecimento — que tenha redefinido profundamente o rumo da sua pesquisa artística?
Foi a própria vida, em seus quebres e recomeços, que redefiniu minha pesquisa. Houve um momento de grande ruptura em que experimentei uma sensação profunda de vazio e desolação. Foi nesse lugar de fragilidade que compreendi, talvez pela primeira vez de maneira definitiva, que a arte não era apenas uma profissão ou uma escolha: era uma necessidade de existência.
Também vivi experiências contemplativas muito intensas, de perceber o corpo de maneira diferente, de sentir uma profunda conexão com aquilo que me ultrapassa. São experiências difíceis de traduzir em palavras, mas que permanecem na matéria da pintura. E existe ainda o deslocamento cultural. Vivo no Brasil há mais de uma década e esse território transformou profundamente meu olhar. Cheguei trazendo uma história, uma memória e uma formação, mas encontrei aqui outras paisagens, conhecimentos, símbolos e formas de relação com a natureza. Minha linguagem nasceu desse cruzamento.
Hoje percebo que não foi uma única experiência que definiu minha pesquisa, mas uma sucessão de atravessamentos. A vida foi criando as perguntas, e a pintura foi se tornando o lugar onde procuro respondê-las.
Em tempos de tanta velocidade e excesso de imagens, sua obra parece convidar à contemplação e à escuta. Que tipo de experiência você espera despertar em quem permanece diante de um de seus trabalhos?
No meu perfil está escrito: “Pinto a percepção da vida nas cores da alma.” Quero que a pessoa não apenas olhe para a obra, mas permaneça diante dela tempo suficiente para perceber o que acontece dentro de si. Não me interessa entregar uma interpretação pronta. Prefiro criar uma abertura para que cada pessoa encontre suas próprias sensações, memórias e perguntas.
Acredito que uma obra também transforma o espaço ao seu redor. Ela cria atmosfera, provoca presença e pode alterar a maneira como percebemos um lugar. Se vivemos cercados por imagens que disputam nossa atenção o tempo inteiro, talvez uma das experiências mais radicais que a pintura possa oferecer hoje seja justamente esta: Parar, respirar, sentir, escutar.
Se sua produção pudesse ser compreendida não como um conjunto de pinturas, mas como uma única mensagem ao mundo, qual seria essa mensagem?
Amor. Amor pela vida, pela Terra, pelo corpo, pela natureza e por tudo aquilo que sustenta nossa existência. Vivemos rodeados por guerras, intolerância, violência, excesso e separação.
Minha pintura nasce de uma necessidade quase contrária a tudo isso: a necessidade de reconectar. Quero lembrar que pertencemos à Terra, que somos parte de uma rede maior e que cuidar de nós também significa cuidar do que nos rodeia.
Talvez minha mensagem seja simples: “Ainda precisamos aprender a habitar o mundo com mais presença, cuidado e amor.”
Qual é a pergunta que sua arte ainda não conseguiu responder?
Talvez minha arte ainda não queira responder. Ela está interessada justamente em permanecer no território da pergunta. Carrego comigo questões sobre o futuro, sobre consciência, sobre a relação entre corpo e território, sobre aquilo que herdamos e aquilo que ainda estamos construindo.
Não sei exatamente qual será o próximo passo da minha pesquisa, e gosto de não saber. Neste momento, prefiro deixar a vida me atravessar, observar o que surge, escutar os encontros e permitir que novas experiências contaminem minha pintura. Talvez a próxima fase esteja justamente nessa abertura: descobrir até onde pode ir uma linguagem quando deixamos de tentar controlá-la completamente. A pergunta que permanece é também aquilo que mantém a obra viva.
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